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Transtorno do jogo: como as apostas ‘fisgam’ o cérebro e viciam

O encanto do jogo não está em ganhar, está em quase ganhar
O encanto do jogo não está em ganhar, está em quase ganharImagem: Getty Images

A explosão de brasileiros buscando ajuda para lidar com o vício em jogos de azar acendeu um alerta grave no país. Os números mostram a dimensão do problema: 10,9 milhões de pessoas (7,3% da população) apresentam jogo de risco ou problemático.

Entre quem apostou no último ano, esse número dispara para 38,6%. Já 1,4 milhão de brasileiros (0,8%) preenchem critérios compatíveis com um possível transtorno do jogo grave. Os dados são do 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, coletados entre 2022 e 2024 por pesquisadores da Uniad (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas) da Unifesp.

Os homens se mostram especialmente vulneráveis: 43,7% dos apostadores homens foram classificados em perfil de risco ou problemático, contra 28,9% das mulheres.

Como o jogo fisga o cérebro

O encanto do jogo não está em ganhar, está em quase ganhar. É essa incerteza que ativa o sistema de recompensa e faz a dopamina disparar.

Quando esse mecanismo se desregula, surge o transtorno do jogo, classificado em manuais de diagnóstico psiquiátricos, como DSM-5 e na CID-11 como uma dependência comportamental.

Não há substâncias químicas externas envolvidas, mas os sintomas são muito semelhantes aos de outros vícios:

  • Perda de controle;
  • Necessidade de apostar quantias cada vez maiores;
  • Irritação e sofrimento quando a pessoa tenta parar.

O prazer diminui, mas o impulso permanece — um circuito que aprisiona.

Essa vulnerabilidade se amplifica diante do ambiente atual. As plataformas de apostas esportivas, as famosas “bets”, se tornaram onipresentes. A facilidade de acesso pelo celular transforma uma aposta rápida em uma espiral difícil de interromper.

Para quem suspeita do problema, o Hospital das Clínicas montou um questionário com 12 sinais de alerta. Cinco respostas “sim” já justificam procurar ajuda. Entre os pontos avaliados estão: uso de cartão de crédito para apostar, esconder comprovantes, vender bens da família, pegar empréstimos para pagar dívidas e voltar ao jogo para tentar recuperar perdas — um ciclo clássico da dependência.

Tratamento, prevenção e onde buscar ajuda

Por ser um transtorno complexo, o tratamento costuma envolver várias frentes.

A psicoterapia é um dos pilares, tanto a terapia cognitivo-comportamental, focada em estratégias práticas, quanto a psicoterapia psicodinâmica, que mergulha nos fatores emocionais que sustentam o jogo.

Em paralelo, certos medicamentos ajudam a estabilizar comorbidades frequentes, como depressão, ansiedade, TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) e uso de álcool ou drogas. A naltrexona, utilizada em dependência de álcool e opioides, também pode ser útil em alguns casos.

O cuidado costuma envolver ainda:

  • Intervenção motivacional;
  • Orientação à família;
  • Grupos de apoio;
  • Prevenção contínua.

Fonte: VivaBem UOL