Artigos de menuUltimas notícias

Estudo estima que fim da escala 6×1 pode criar até 4,5 mi de empregos

Um estudo da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), divulgado hoje pelo Governo Federal, estima que reduzir a jornada semanal pode abrir espaço para até 4,5 milhões de empregos no Brasil, em meio ao debate sobre o fim da escala 6×1.

Levantamento é assinado pela economista Marilane Teixeira, pesquisadora do Cesit (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho). Ela calculou que a redução de 44 para 36 horas semanais teria potencial de criar até 4,5 milhões de vagas e elevar a produtividade em cerca de 4%.

Estudo integra o chamado ‘Dossiê 6×1’, elaborado por 63 autores e composto por 37 artigos. O material reúne professores, pesquisadores, auditores fiscais do Trabalho e representantes sindicais para discutir impactos econômicos e sociais de mudanças na jornada.

Marilane afirma que país tem condições de reduzir tempo de trabalho sem repetir previsões de queda do PIB ou de quebra de empresas. “Não vai ser agora, com avanços tecnológicos, num contexto de pleno emprego, com crescimento econômico e o nível de tecnologia que temos, que não vai ser possível no Brasil reduzir para 40 horas”, disse a pesquisadora do Cesit/Unicamp.

Dossiê usa dados da Pnad Contínua do IBGE para contestar ideia de que brasileiro trabalha pouco. Segundo o documento, cerca de 21 milhões de pessoas cumprem jornada acima das 44 horas previstas na CLT, e 76,3% dos ocupados trabalham mais de 40 horas por semana.

Pesquisadora também aponta custos de saúde associados à sobrecarga. O dossiê registra que, em 2024, houve meio milhão de afastamentos por doenças psicossociais ligadas a condições desfavoráveis de trabalho, considerando apenas o emprego formal.

Texto estima alcance de diferentes modelos de redução. A adoção de escala 4×3 atingiria diretamente 76 milhões de trabalhadores, enquanto a migração para 40 horas semanais em escala 5×2 beneficiaria cerca de 45 milhões, de acordo com o dossiê.

Governo tenta levar discussão ao Congresso

Tema entrou na agenda do governo e a discussão envolve Congresso, empresários e trabalhadores. Em entrevista no início do mês, o presidente Lula questionou: “Com os avanços tecnológicos que o Brasil teve, acha que é necessário as pessoas trabalharem na mesma jornada que trabalhavam há 40 anos?”

Lula disse que mudança precisa dialogar com realidade de quem enfrenta longos deslocamentos e rotinas extensas. “Um jovem, uma menina, não quer mais se levantar às 5h da manhã e ficar até 6h da noite dentro de uma fábrica pegando ônibus lotado. Com o avanço tecnológico, a produção aumentou muito.”, afirmou.

Presidente defendeu negociação ampla para definir o que é viável. “Essa não é uma tarefa só do governo. O governo tem que estabelecer uma discussão com o Congresso, com o empresariado e com os trabalhadores e fazer aquilo que é possível. O dado concreto é que está na hora de a gente fazer uma mudança na jornada para que o povo tenha mais tempo de estudar, de pensar”, disse.

Ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirmou que o governo trabalha com a ideia de reduzir para 40 horas sem corte de salário. “A proposta que estamos construindo, defendida pelo presidente Lula e pelo nosso governo, é de, no máximo, 5×2, 40 horas semanais, sem redução de salário. Esta é a proposta que está sendo desenhada para todos os setores da economia no Brasil, por uma questão de dignidade dos trabalhadores”, declarou.

Nota do Ipea e histórico no Brasil

Nota técnica do Ipea, publicada em fevereiro de 2026, é citada pela Secom como reforço para a discussão. O texto concluiu que o custo de reduzir a jornada para 40 horas seria comparável ao de reajustes históricos do salário mínimo, e que, em setores como indústria e comércio, o impacto no custo operacional ficaria abaixo de 1%.

O dossiê também resgata a última redução legal da jornada no país, feita na Constituição de 1988. Na época, o limite caiu de 48 para 44 horas semanais, em um cenário de recessão, inflação alta e desemprego elevado.

Marilane diz que a mudança de 1988 não levou a um colapso das empresas. “Mesmo assim, as empresas não quebraram, nem se gerou desemprego”, afirmou.

Fonte: UOL Economia