Pesquisa revela que maternidade ainda desacelera carreiras e afasta mulheres de oportunidades profissionais
Levantamento da Gupy mostra que falta de flexibilidade, benefícios e acolhimento nas empresas impacta processos seletivos, promoções e permanência de mães no mercado de trabalho
Conciliar maternidade e carreira profissional ainda representa um dos maiores desafios para mulheres brasileiras no mercado de trabalho. A dificuldade vai além da rotina intensa entre vida pessoal e profissional e expõe problemas estruturais relacionados à falta de flexibilidade, ausência de políticas de acolhimento e culturas corporativas pouco preparadas para lidar com as demandas da parentalidade.
Uma pesquisa realizada pela Gupy, empresa especializada em Tecnologia para recursos humanos, ouviu mais de 1.300 mulheres brasileiras para entender como a maternidade influencia trajetórias profissionais. Do total de participantes, cerca de 75% são mães. O levantamento revela que os impactos começam já nos processos seletivos e seguem ao longo de toda a jornada profissional.
Segundo os dados, 35% das mães entrevistadas acreditam que a maternidade afeta negativamente suas chances em seleções de emprego. As dificuldades aparecem principalmente no avanço entre etapas, na obtenção de entrevistas e no recebimento de propostas compatíveis com experiência e qualificação profissional.
O estudo aponta que esse cenário está relacionado, principalmente, à falta de processos seletivos estruturados e à influência de vieses inconscientes nas decisões de contratação. Quando os critérios de avaliação não são claros e objetivos, julgamentos subjetivos acabam interferindo nas oportunidades oferecidas às candidatas.
Além das barreiras na contratação, a pesquisa mostra uma mudança significativa no comportamento das profissionais em relação às vagas disponíveis no mercado. Benefícios que antes eram vistos como diferenciais passaram a ser fatores decisivos para muitas mulheres.
De acordo com o levantamento, 50% das mães já deixaram de se candidatar a oportunidades de emprego por ausência de benefícios considerados essenciais para equilibrar trabalho e maternidade. Entre os itens mais valorizados aparecem trabalho remoto, horários flexíveis, plano de saúde familiar, auxílio-creche e possibilidade de jornada reduzida sem corte salarial.
A valorização dessas políticas não se restringe apenas às mulheres que já são mães. Considerando todas as entrevistadas, incluindo mulheres sem filhos, 54% afirmaram priorizar vagas que mencionam apoio à parentalidade e melhores condições de equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
O levantamento também mostra que a maternidade pode contribuir para o desenvolvimento de competências importantes no ambiente corporativo. Cerca de 19% das mães disseram perceber impactos positivos da maternidade em suas carreiras, principalmente em habilidades relacionadas à gestão emocional, tomada de decisão, empatia e organização.
Apesar disso, os obstáculos continuam limitando oportunidades de crescimento. Segundo a pesquisa, 40% das mães já recusaram promoções, vagas ou possibilidades de ascensão profissional devido à dificuldade de conciliar responsabilidades familiares e trabalho.
As avaliações sobre o suporte oferecido pelas empresas para que mães ocupem cargos de liderança revelam um cenário dividido. Enquanto algumas mulheres relatam experiências positivas, outras descrevem ambientes pouco preparados para acolher profissionais com filhos, demonstrando um descompasso entre discurso corporativo e práticas efetivas de inclusão.
Os relatos espontâneos reunidos pela pesquisa reforçam esse contraste. Algumas participantes afirmaram ter ouvido de gestores que precisariam escolher entre maternidade e carreira. Outras relataram desaceleração profissional após o nascimento dos filhos ou passaram a buscar exclusivamente vagas com possibilidade de trabalho remoto.
Para Luana Horchuliki, diretora de Gente e Gestão da Gupy, o mercado ainda enxerga a maternidade de maneira equivocada. Segundo ela, mulheres que desenvolvem habilidades de liderança, gestão de crise e organização no ambiente familiar acabam sendo excluídas de oportunidades profissionais justamente por serem mães.
A executiva defende que processos seletivos estruturados e apoiados por tecnologia podem reduzir vieses e tornar critérios mais transparentes. A empresa afirma que ferramentas voltadas à diversidade aumentam em cerca de 60% as contratações de grupos minorizados.
Além do recrutamento, especialistas destacam que empresas também precisam acompanhar indicadores de permanência, progressão de carreira e bem-estar das profissionais para evitar desigualdades internas. O tema ganha ainda mais relevância diante das atualizações da NR-1, norma regulamentadora que reforça a responsabilidade das organizações na prevenção de riscos psicossociais relacionados à sobrecarga e jornadas excessivas.
O avanço das discussões sobre parentalidade no ambiente corporativo também acompanha mudanças no comportamento do mercado de trabalho. Cada vez mais profissionais avaliam não apenas salários, mas também cultura organizacional, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e coerência entre discurso institucional e práticas adotadas pelas empresas.
Especialistas avaliam que organizações que investirem em políticas consistentes de apoio à parentalidade, desenvolvimento de lideranças mais inclusivas e ambientes de trabalho flexíveis terão maior capacidade de atrair e reter talentos nos próximos anos.
Fonte: Revista Capital Econômico
