Artigos de menuUltimas notícias

Nova norma inclui burnout e pressão no trabalho como risco ocupacional

Norma exige que empresas enfrentem metas abusivas e sistematizem cuidados com a saúde mental no trabalho
Norma exige que empresas enfrentem metas abusivas e sistematizem cuidados com a saúde mental no trabalho- Imagem: Getty Images

A publicitária Antônia*, 32, já sentia a sobrecarga no trabalho havia alguns meses, mas pensou que aquilo era “assim”. “Achei que tinha que lidar com isso sozinha, que ser dedicada era assim e que a rotina era essa”, lembra. Uma demissão na equipe, no entanto, fez tudo piorar. “Recebi uma carga maior ainda de trabalho e foi aí que tudo piorou de uma vez. Sentia como se estivesse carregando um peso enorme —e, de repente, tudo caiu de uma vez”, conta.

No mesmo dia, ela lembra que se sentiu paralisada. “Precisei ir embora mais cedo, não conseguia nem tomar café ou falar sem chorar. Foi aí que entendi que era algo mais sério”, diz. Antônia faz parte dos trabalhadores brasileiros afastados por burnout em 2025 —síndrome reconhecida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e associada ao estresse crônico no trabalho.

De acordo com um levantamento da Anamt (Associação Nacional de Medicina do Trabalho), o número de afastamentos por burnout no Brasil passou de 1.760, em 2023, para 6.985 em 2025 —indicando o avanço do sofrimento psíquico ligado ao trabalho.

Além do burnout, ansiedade e depressão, muitas vezes ligadas ao estresse no trabalho, estão no topo dos motivos para pedidos de benefício por incapacidade temporária em 2025 no Brasil.

Para tentar conter esse avanço, a partir de hoje, 26 de maio, empresas brasileiras passarão a ter de incluir oficialmente os riscos à saúde mental no gerenciamento de riscos ocupacionais. A mudança faz parte da atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), considerada a “norma-mãe” da segurança e saúde no trabalho no país.

Na prática, a nova regra amplia o conceito de risco ocupacional além dos acidentes físicos e passa a incluir fatores psicossociais ligados ao adoecimento mental, como pressão excessiva, metas abusivas, jornadas extensas, assédio moral, conflitos interpessoais e sobrecarga de trabalho.

A NR-1 não é nova: foi criada em 1978 e estabelece diretrizes gerais das normas de segurança do trabalho. A diferença é que, agora, a saúde mental passa a integrar formalmente o PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos), documento obrigatório para todas as empresas.

De acordo com Jéssica Palin Martins, advogada, psicóloga e especialista em saúde mental corporativa, a mudança deve impactar toda a estrutura corporativa. “Toda empresa deverá ter um plano de ação inserido nos processos de trabalho. Não cabe mais, portanto, apenas à área de recursos humanos promover um ambiente saudável”, afirma.

Com a mudança, líderes de diferentes áreas —como Segurança no Trabalho e Gestão de Riscos— também passam a ter responsabilidade sobre fatores como organização do trabalho, comunicação, distribuição de tarefas e acompanhamento das equipes.

Segundo ela, ambientes desorganizados, sem clareza de funções e com metas inalcançáveis favorecem o desenvolvimento de burnout —e vão exigir novas estratégias das empresas.

“Muitas vezes, o trabalhador quer cumprir prazos e entregar resultados, mas encontra falta de objetividade e organização dentro da corporação, o que potencializa o adoecimento”, diz a advogada.

Para Thatiana Capellano, especialista em comunicação corporativa e gestão de crise e diretora da consultoria 4CO, a principal dificuldade das empresas não está na implementação técnica, mas na disposição de tocar em temas sensíveis, como rever práticas abusivas já naturalizadas.

Segundo ela, muitas empresas já possuem indicadores de afastamento por saúde mental ou denúncias por assédio e pressão excessiva, mas ainda resistem em enfrentar esses problemas. “Acredito que só vamos reduzir o sofrimento e o adoecimento mental nas empresas se estiverem dispostas a falar sobre metas abusivas, demitir assediadores e pagar salários dignos”, afirma.

Como o burnout afeta o cérebro

Imagem
Imagem: Getty Images

Embora muitas vezes tratado como “estresse excessivo”, o burnout envolve um processo progressivo de desgaste físico e emocional. De acordo com a psiquiatra Danielle Admoni, supervisora na residência de psiquiatria da Unifesp, o quadro costuma começar quando o profissional tenta sustentar uma rotina cada vez mais pesada, mas percebe queda no próprio rendimento.

“A pessoa vai ficando cada vez mais cansada, mais afastada das pessoas e funcionando cada vez pior, apesar do esforço maior”, explica. Com o tempo, o esgotamento afeta outras áreas da vida, comprometendo sono, alimentação, relações pessoais e a capacidade de sentir prazer.

Do ponto de vista cerebral, Admoni afirma que o burnout provoca alterações semelhantes às observadas no transtorno de estresse pós-traumático.

“Acontece uma hiperativação da amígdala, região ligada ao medo e ao alerta, com aumento do cortisol.
A pessoa passa a viver em estado constante de alerta”
, diz.

Segundo ela, o excesso de cortisol também prejudica o funcionamento do hipocampo, área relacionada à memória. Isso ajuda a explicar sintomas como dificuldade de concentração, esquecimentos frequentes e sensação permanente de exaustão.

A psiquiatra destaca ainda que o burnout está necessariamente ligado ao trabalho —diferentemente da depressão e da ansiedade, que podem ter diversas causas.

“O burnout é uma condição relacionada ao ambiente de trabalho. Já depressão e ansiedade podem ser consequências desse processo”, afirma.

O que muda para empresas

Imagem
Imagem: iStock

De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego, as empresas deverão identificar, avaliar e controlar fatores psicossociais capazes de prejudicar a saúde dos trabalhadores.

Isso significa que as organizações precisarão ir além de benefícios pontuais, como terapia ou ginástica laboral, e enfrentar as causas estruturais do problema.

Entre as medidas estão pesquisas de clima organizacional, canais seguros de denúncia, treinamento de lideranças, revisão de metas abusivas, monitoramento de jornadas excessivas e políticas claras de combate ao assédio.

Jéssica Palim afirma que as empresas precisarão passar por duas etapas principais: primeiro, mapear os fatores de risco psicossocial para desenvolver o PGR; depois, criar um plano de ação com medidas preventivas.

“A legislação não determina uma ferramenta específica, mas a empresa precisará comprovar os indicadores utilizados e explicar como faz o monitoramento desses riscos”, explica.

Segundo especialistas, a atualização da NR-1 deve aumentar a responsabilização das empresas em casos de adoecimento mental relacionado ao trabalho. “A empresa não poderá mais alegar, em um eventual processo trabalhista, que não sabia, porque isso passará a estar documentado”, afirma Thatiana Capellano.

Ela ressalta, porém, que a eficácia das medidas depende da confiança dos trabalhadores nos processos internos — o que nem sempre ocorre. Uma pesquisa feita em 2021 pela consultoria Gartner mostrou que apenas 29% dos empregados acreditam nas informações coletadas pela empresa por meio de feedbacks e pesquisas organizacionais.

“Existe a percepção de que nem sempre as pesquisas internas garantem anonimato de fato, o que compromete a qualidade das respostas”, avalia. Além disso, há a sensação de que, mesmo quando confiáveis, essas pesquisas raramente se traduzem em mudanças concretas.

O que muda para o trabalhador

Imagem
Imagem: Getty Images

Especialistas avaliam que a norma representa um avanço ao reconhecer oficialmente a relação entre ambiente de trabalho e saúde mental.

“Antes, havia um olhar muito focado apenas na saúde física. Agora há o reconhecimento de que saúde física e mental caminham juntas”, afirma a psiquiatra Danielle Admoni.

“Quanto mais falarmos sobre saúde mental, menor o estigma. As pessoas entendem que transtornos mentais não são falha de caráter nem preguiça — são condições que exigem cuidado”, diz.

Para Jessica Palim, a norma reforça a necessidade de cuidar dos talentos. “Investir em pessoas deixou de ser opcional. Não há mais espaço para gerir empresas como no passado”, afirma.

Se a empresa não cumprir a norma, o trabalhador pode fazer denúncia anônima. O registro pode ser feito ao Ministério do Trabalho e Emprego, por meio dos canais oficiais de inspeção trabalhista, ou ao Ministério Público do Trabalho.

A expectativa do governo é que a implementação comece com foco educativo e orientativo.

Fonte: VivaBem/UOL