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CEOs abraçam letramento como ferramenta de inclusão nas empresas

Quando o sócio-diretor da ECCON Soluções Ambientais percebeu as dificuldades que a empresa estava tendo para contratar um profissional negro, se deu conta de que precisava mudar a cultura corporativa se quisesse de fato tornar seu negócio anti-racista. Foi aí que entrou o letramento.

O conceito que está em moda por ter chegado ao C level das empresas é definido por analistas como um processo de aprendizado para ampliar conhecimento, consciência e engajamento sobre diversidade, seja racial, de gênero e etária. A consequência direta do letramento é a difusão do aprendizado para além do mundo corporativo.

De acordo com Liliane Rocha, fundadora da consultoria de sustentabilidade e diversidade Gestão Kairós, não é possível ter avanços em ESG se os funcionários de uma empresa não entenderem do que se tratam essas ações.

“Precisamos levar em conta o contexto. Vivemos em uma sociedade mais complexa, pós-pandêmica, na 4.ª revolução industrial, de narrativas interconectadas, com ao menos cinco guerras ocorrendo. Temos vivido tensões, mudanças, que movimentam as empresas a entender a importância da diversidade para o negócio”, Liliane Rocha, fundadora da consultoria de sustentabilidade e diversidade Gestão Kairós

Liliane diz estar vendo cada vez mais CEOs despertando para a importância do letramento, mas faz um alerta. A popularidade do conceito não pode levar a uma banalização da prática. “O grande desafio desse momento é separar o joio do trigo e levar uma atuação responsável e informação de qualidade que vai virar ação. Dados pouco mudaram de 2007, 2008, 2010, 2016 e 2024 em estudos comparativos.”

De acordo com o Censo Multissetorial da Gestão Kairós 2022, elaborado a partir de pesquisas entre 2019 e 2021, as distribuições médias percentuais no quadro funcional das empresas se assemelham a dados de 10 anos antes, com presença majoritária de homens (68%), brancos (64%), heterossexuais (94,6%), cisgênero (99,6%), sem deficiência (97,3%) e com menos de 50 anos (94,8%).

Inclusão desde o processo seletivo
“Quando a gente colocava na descrição da vaga ‘inglês top, faculdade de ponta’, muitos candidatos negros nem aplicavam, por exemplo. Com o letramento, a gente vai tirando os tabus e entende que essas pessoas foram marginalizadas, não têm experiência porque não tiveram oportunidades. Começamos a sair da inação, com um jeito correto de descrever a vaga, de divulgar a vaga”, explica Yuri Rugai Marinho, sócio-diretor da ECCON.

Para especialistas em letramento, o principal é fornecer contextos históricos para ensinar a importância de se discutir a diversidade. “Estamos passando por um processo de evolução importante quando o assunto é diversidade. Por mais que o letramento seja uma necessidade básica da sociedade, ele nada mais é do que um processo de conscientização”, afirma Felipe Zanola, co-CEO da Thutor, consultoria de gestão de pessoas.

Os casos de erros cometidos por representantes de grandes empresas ao falar de gênero e racismo, principalmente, jogaram luz a esse tema, que vai muito além da contratação. “Vemos a necessidade de contratação de pessoas negras. Sim, isso é muito importante, mas qual é a qualidade das relações estabelecidas nesses ambientes? Isso é menos falado. Começar pelo letramento assegura um pouco mais que essas relações sejam respeitosas”, explica a analista de Recursos Humanos na ECCON, Daniele Caetano.

Mulher, negra e mãe, ela explica que passou a se dedicar ao letramento racial justamente “no processo de me reconhecer negra e com a maternidade”. Contratada para fazer esse trabalho na empresa a partir de uma vivência escolar, Daniele conta que os encontros com funcionários geram incômodos.

“Buscamos repensar as palavras que usamos, trazendo um contexto histórico, um período específico, mostrando a política de embranquecimento da população, que está ligada a uma política de Estado de uma perspectiva do genocidio de pessoas negras, indígenas. As pessoas ficam consternadas porque é uma história escondida”, afirma.

E casos diários da falta de letramento têm impactos importantes. “Existem empresas que trabalham com EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) que não fornecem capacetes para pessoas com cabelo black power ou trançados, já recebi denúncias assim. Essa indústria vem de um padrão europeu, onde homens altos, brancos, de cabelos curtos vestiam aquele EPI”, conta Christie Bechara, fundadora do Cia Sustentável, assessoria para estratégia e gestão ESG. “É difícil ver a diversidade acontecendo. Então, essa formação é necessária.”

Expansão de temas
Mas os casos não ficam só na questão racial, e o desafio, segundo os especialistas, é justamente expandir os temas dentro do letramento. “Muitas organizações tratam a agenda de diversidade muito por gênero, mas não é só isso. Estamos falando de corpos, de regionalidades, de família, de crença”, explica Christie.

“É preciso ter uma conversa sobre religião, será que posso falar com naturalidade que sou da Umbanda, Candomblé, Espiritismo, que sou evangélica?”, questiona, citando repartições públicas, locais em teoria laicos, que têm o crucifixo na porta, por exemplo.

Questões que podem soar mais comuns em nosso dia a dia ainda são tabus em algumas empresas e precisam ser tratadas no letramento, avalia Christie. “Quando falamos de mulheres menstruadas. Eu falo para os homens ‘imaginem vocês trabalhando com um sangramento constante no nariz, um sangramento mensal que te causa enjoo, cólicas’. Sou um pouco visceral às vezes, enfática, porque vejo que tem público que ainda faz gracinhas com determinados assuntos.”

Um fator que pode ajudar nessa expansão de temas, contudo, é a percepção que as lideranças começam a ter dos benefícios que o letramento gera às empresas. Zanola cita, por exemplo, a produtividade da própria equipe.

“Existem inúmeras pesquisas que trazem em suas conclusões que equipes mais conscientes e diversas impulsionam a inovação, a criatividade e o desempenho organizacional. Um exemplo é uma equipe de marketing que pode desenvolver um novo produto ou serviço que atenda a uma necessidade de um grupo socialmente e historicamente negligenciado. Existem inúmeros casos nas indústrias de cosméticos e moda”, explica.

Fonte: Ecoa/UOL