Com 74% contra a a escala 6×1, campanha patronal para manter modelo atual é um fracasso

Pesquisa Meio/Ideia divulgada hoje aponta que 73,7% dos eleitores são a favor do fim da escala 6×1 de trabalho, projeto que está em discussão no Congresso Nacional, enquanto 21,5% a defendem. A margem de erro é de 2,5 pontos.
Por mais que pesquisas de diferentes institutos não sejam comparáveis entre si devido à diferença de metodologia, os dados do Ideia confirmam o que a Quaest (72%, margem de dois pontos, em dezembro) e o Datafolha (71%, margem de dois, em março) também apontam: quase três em cada quatro brasileiros defendem pelo menos duas folgas por semana e um limite de jornada de 40 horas semanais sem redução de salário.
Mais do que isso: mostram que o intenso bombardeio do poder econômico nos últimos meses, incluindo grandes empresas, associações empresariais, seus lobistas e parte da mídia contrária ao projeto, não arranhou até agora o apoio popular à proposta. Do ponto de vista de mudança da opinião pública, até agora vem sendo um fracasso.
Nesse sentido, com quase 74% dos eleitores a favor, uma parcela do patronato aposta em um parlamento que esteja disposto a um suicídio político, ao desistir da tentativa de reeleição. Pressionam deputados federais e senadores, que enviaram bilhões de reais em emendas às suas bases nos últimos três anos e meio para conquistar popularidade, a jogarem tudo para o alto a fim de abraçar a rejeição ao projeto. Ahã, Cláudia, senta lá.
Não à toa, a oposição bolsonarista pegou em armas contra o projeto. A pesquisa Meio/Ideia apontou que, diante da aprovação do fim da 6×1, a avaliação do governo federal melhora para 46%, nem aumenta nem diminui para 19,6% e piora para 24,1%. Esse último grupo claramente já não votaria em Lula, e uma parte daqueles que dizem que não mudaria a avaliação já está com o presidente. Ou seja, há ganho eleitoral, considerando que metade da população veria sua gestão com melhores olhos.
Muitos eleitores de parlamentares bolsonaristas esperam o voto contrário de seus representantes. Mas o Centrão sabe que não vai ter a mesma folga.
A pesquisa aponta que os eleitores sabem bem o impacto do fim da 6×1 em sua vida: 33,7% dizem que vão passar mais tempo com a família; 24%, descansar; 11%, poder se especializar ou se qualificar profissionalmente; 9,6%, buscar uma segunda fonte de renda; 7%, poder cuidar melhor dos afazeres domésticos; 3,5%, frequentar mais igreja ou culto religioso; e 2,3%, frequentar mais eventos culturais e esportivos.
Isso vai na contramão do que afirmou o deputado federal e presidente do Republicanos, Marcos Pereira. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele disse que, com o dia de descanso a mais, o trabalhador “vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar”. E questionou: “qual o lazer de um pobre numa comunidade?” ou “num sertão lá do Nordeste?”
A questão é colocar o tema em votação, como venho repetindo aqui. Na hora que for a plenário, a proposta de duas folgas por semana e 40 horas de limite sem redução salarial vence. Vale lembrar que as propostas de emenda à Constituição podem ser engavetadas ou ter o seu trâmite suspenso. Contudo, como estratégia, o governo federal também mandou um projeto de lei de urgência constitucional, que trava a pauta do Congresso se não for aprovado em até 90 dias.
Os parlamentares têm até lá para decidir o que querem do seu futuro eleitoral.
Fonte: Coluna Leonardo Sakamoto no UOL
