Metade dos pacientes com covid tem sequelas que passam de um ano, revela Fiocruz

Estudo recente da Fundação Oswaldo Cruz de Minas Gerais mostra que entre os sintomas mais comuns estão fadiga, tosse persistente, dificuldade para respirar, perda de olfato ou paladar e dores de cabeça frequentes

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A pesquisa acompanhou, por 14 meses, 646 pacientes diagnosticados com covid-19. Desse grupo, 324 deles tiveram sintomas após a infecção – Foto: Vinicius Magalhães/Sesi

Evelyn Rodrigues, de 20 anos, recebeu o diagnóstico de covid-19 em janeiro deste ano. Foram 15 dias em isolamento, com os sintomas variando entre coriza, cansaço e enjoos. Apesar dos sintomas leves, por conta das duas doses da vacina, a doença do novo coronavírus deixou marcas na estudante. Mesmo depois de quatro meses desde a infecção, Evelyn continua lidando com os reflexos da covid, como a perda de memória recente. 

“Eu sempre tive uma memória até que boa e quando eu tive a covid, depois que passou os dias dos sintomas, eu percebi que eu estava bem esquecida. Tenho um remédio que tomo todos os dias no mesmo horário. Mas eu olhava e me perguntava ‘meu, será que eu tomei ou não tomei o remédio?!’ E eu tinha que olhar na cartela, ver se estava ali marcado, porque eu não lembrava”, descreve a estudante.

“Outra coisa que eu percebi foi quando fui fazer uma comida e não sabia se eu tinha colocado sal. Então eu coloquei sal duas vezes e a comida ficou muito salgada e em outros momentos eu não coloquei sal nenhuma vez porque eu não sabia se eu já tinha colocado ou não. Algo que também vem acontecendo muito é perda de cabelo. O meu cabelo está caindo muito desde que eu peguei (a covid), até hoje ele continua fraco e não está melhorando”, acrescenta. O que acontece com Evelyn não é um caso isolado. Um estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) de Minas Gerais revela que metade dos pacientes diagnosticados com a doença do novo coronavírus tiveram sequelas que passaram de um ano. 

Sequelas, segundo estudo

A pesquisa acompanhou, por 14 meses, 646 pacientes diagnosticados com covid-19. Desse grupo, 324 deles tiveram sintomas após a infecção. O que é classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como covid longa. Entre as consequências mais comuns estão a fadiga, tosse persistente, dificuldade para respirar, perda de olfato ou paladar e dores de cabeça frequentes. Insônia, ansiedade e tontura também foram relatados, mas por um número menor de pacientes. Já casos mais graves, como trombose, foram diagnosticados em cerca de 6% dos participantes do estudo. 

Os sintomas duradouros da covid-19 foram constatados em pacientes que apresentaram os três níveis da doença. Nesse caso, em 86 de 260 que tiveram covid grave. Assim como em 43 dos 57 diagnósticos com a doença moderada e 198 de 329 de forma leve. O médico infectologista Marcos Caseiro explica que o tratamento de pacientes que apresentam sequelas da covid-19 não é global e deve ser individualizado. Por isso, segundo o especialista, o ideal é continuar se protegendo para não ser infectado. 

“Os sintomas são muito graves por isso eu tenho insistido em dizer que o ideal é não pegar a covid, esse é o critério. E como? Se protegendo e utilizando máscara. Essa é a primeira questão que é fundamental. Não tem um tratamento para sequela, isso tem que ser individualizado”, observa. “Temos usado muitos antidepressivos, corticoides para essas alterações nasais de cheiro e de gosto. Veja, nós estamos aprendendo a lidar com essas complicações do vírus que são muitas. E não há uma devida sistematização dos órgãos competentes, responsáveis, e das prefeituras, dos estados. Eu desconheço, a não ser os grandes centros de pesquisas que se montou ambulatórios específicos para acompanhar esses pacientes”, completa Caseiro.

Papel do SUS

O infectologista avalia também que o Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não está preparado para receber os pacientes que apresentam sequelas da covid-19. Ele ressalta a importância do treinamento da classe médica para identificar os casos e realizar o tratamento específico correto. 

“É absolutamente necessário que o SUS discuta esse assunto, abra ambulatórios, faça treinamentos conjuntos com grupos de médicos para que a gente possa conduzir mais adequadamente esses pacientes. O SUS está absolutamente despreparado neste momento para as sequelas, então, muitos pacientes acabam indo para o pronto-socorro e é como se basicamente chegassem com um quadro inespecífico e muitos médicos acabam negligenciando a importância desses sintomas e a sua devida associação com a covid. É isso que estamos defendo e temos um longo trabalho pela frente, entre eles, o treinamento da classe médica para investigar esses casos e oferecer um tratamento específico seja com um antidepressivo ou outros remédios específicos para cada quadro individualizado”, sugere o especialista. 

Fonte: Rede Brasil Atual

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