Por que ainda achamos ‘feio’ querer descansar? Não justifique a sua exaustão

Se você abriu um texto com esse título, receba meu abraço.
Você não precisa justificar seu cansaço.
Estes dias, voltou a circular nas redes um vídeo em que Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, filósofo, líder quilombola e ativista, afirma que gosta de vadiar, que é vagabundo, como forma de crítica radical ao trabalho tal qual o conhecemos e construímos como valor na sociedade do cansaço.
E antes de ser rotulada de preguiçosa (é raro, mas acontece muito, há quase 10 anos, desde que comecei minha pesquisa sobre o movimento slow), preciso dizer que adoro trabalhar e que o trabalho constitui uma importante fatia da minha identidade (e acredito que das identidades de todos os indivíduos).
Não sou especialista em trabalho, mas tenho colegas pesquisadores que são e este é um debate complexo, que não é o centro do meu ponto aqui. Meu foco neste texto é a raiz da compreensão que temos sobre o ócio, que no Brasil, já foi criminalizado com uma lei que condenava a vadiagem, cuja revisão é proposta muito recente.
Nossa herança histórica, de uma sociedade estruturalmente desigual, racista, segregada e discriminatória, se soma aos valores da cultura da performance e da produtividade tóxica e produz distorções para as quais temos que olhar.
Uma destas distorções é a gente achar “feio” dizer não a alguma coisa, por motivo de cansaço. A gente fica tentando justificar o cansaço e a falta de energia, como se isso fosse de fato um crime.
Vale uma ressalva aqui. Nossos corpos cansados, como venho dizendo em meus textos aqui nesta coluna, não são “apenas” consequências deste mundo acelerado. Eles são parte fundamental (talvez o alicerce) deste projeto de desumanização da vida e da vida em função do trabalho, do consumo e das plataformas. Precisamos o tempo todo afirmar que somos gente e não máquina.
Parte desta afirmação passa por entendermos como temos compreendido o cansaço.
Por que achamos feio estar cansados? Meu pitaco é de que vivemos em um mundo em que convivem esta herança que condena a vadiagem com a emergência de uma idealização e valorização da ocupação. Eu expliquei aqui o que é a cultura da produtividade tóxica.
Nesta época do ano, isso fica ainda mais latente. São muitos os convites, eventos, compromissos, apelos. Eu não sei vocês, mas eu fico cansada só de pensar. E a gente fica meio perdido, tentando encontrar justificativa para o cansaço; e usar o cansaço como pretexto para dizer aquele não que é tão importante dizer.
Neste olhar necessário para como compreendemos o cansaço, eu vejo um movimento duplo. Por um lado, como diz o meme, “precisamos normalizar” o cansaço. E entender quando não estamos dispostos a tudo que se apresenta como possibilidade.
Por outro, precisamos brigar contra esta normalização, pois ela é parte de uma engrenagem que não é responsabilidade de cada um de nós. Não estamos cansados, porque somos “malas” ou anti sociais. Estamos cansados, porque estamos vivendo em uma máquina de moer gente: trabalhando, consumindo e rolando nossos feeds em regime temporal 24/7.
Para o mundo, precisamos ser mais compreensivos quando nós (ou alguém querido) diz que não está disponível por estar cansado; para dentro, precisamos entender a parte deste cansaço que está relacionada a amarras que são possíveis de serem desatadas.
Que pequenas mudanças na sua vida são possíveis para que você possa descansar? Como nós, coletivamente, vamos falar sobre isso para que todos(as) possam ter direito a descansar?
Vivemos esta epidemia de exaustão, porque estamos neste ciclo sem fim. Ailton Krenak, filósofo e ambientalista, afirma que temos que sair do modo de sobrevivência. Para quem vive em contextos urbanos em grandes metrópoles este exercício parece ser mais difícil. Por isso, o empenho precisa ser coletivo.
Não podemos nos sentir obrigados a justificar o cansaço.
Não podemos achar feio estarmos cansados.
Não podemos nos sentir obrigados a dizer sim mesmo estando exaustos.
Não podemos sentir culpa por não fazer nada.
Não podemos glorificar a indisponibilidade como se isso fosse status.
Não podemos nos achar vagabundos ou preguiçosos quando não queremos fazer nada.
Não podemos criminalizar o ócio.
E claro que isso é pior quanto mais marcadores de desigualdades estão na “sua conta”. Porque não temos todos as mesmas 24 horas, nem o mesmo direito ao descanso.
Descanso é direito e não crime. Precisamos descansar, porque somos gente e não máquinas. Do ponto de vista coletivo, é nisso que acredito.
Do ponto de vista individual, eu reforçaria o título deste texto: não justifique seu cansaço. Parte da descolonização do tempo da qual precisamos passa por conversarmos sobre os tempos e a aceleração da vida de outras maneiras. Diga nãos possíveis e cuide deles.
E investigue internamente o quanto deste cansaço é deste mundo que corre; e o quanto é seu. O exercício é entender o que é possível hoje. E fazer de cada dia o possível do agora. E acolher o possível como suficiente.
Fonte: Coluna Michelle Prazeres no UOL
