Redes sociais não são para criança e esses 4 riscos escondidos mostram isso

Mais de 70% dos brasileiros com idade entre 9 e 17 anos já acessam a internet por celular no Brasil, e muitos entram nas redes sociais antes dos 6 anos.
No momento em que diversos países, incluindo o Brasil, começam a restringir a presença de jovens nessas plataformas, Isabella Henriques, diretora executiva do Instituto Alana, explica por que redes sociais não são feitas para crianças, em entrevista ao Deu Tilt, o podcast do UOL para os humanos por trás das máquinas.
Há mais de duas décadas, o Alana atua no debate público para a construção de um ambiente digital mais saudável para crianças e adolescentes. Segundo Isabella, a exposição precoce às redes sociais apenas intensifica o problema, já que coloca um público para lá de vulnerável em contato com situações para as quais ele não está preparado. Isso pode levar a danos à saúde mental e a situações de violência.
O problema, de fato, é a forma como as redes sociais são construídas, sem pensar na proteção das crianças, o que faz delas ambientes áridos para esse público.
Como um produto, que é colocado no mercado e utilizado massivamente por crianças e adolescentes, não foi pensado, no seu planejamento e ao longo da sua vida útil, no impacto que ele terá para esse público
“O design das plataformas não é amigável, não é sensível às peculiaridades do desenvolvimento biopsicossocial de crianças e adolescentes. As crianças e adolescentes vivenciam um período que é bastante peculiar no desenvolvimento humano. Elas são hiper vulneráveis numa relação de consumo que é bastante assimétrica com essas empresas”, Isabella Henriques.
As redes sociais já estão há tanto tempo entre nós que a academia já mapeou as armadilhas centrais nesses ambientes digitais, conta Isabella. Ela detalha os chamados “quatro Cs”:
- conduta: comportamentos perigosos mantidos por outros usuários ou absorvidos na interação com eles;
- conteúdo: exposição a materiais inadequados, seja pelo teor violento, sexual ou simplesmente por não ser pensado para a faixa etária do jovem;
- contrato: relações desiguais de consumo com as donas das plataformas ou empresas que as exploram comercialmente;
- contato: riscos de interação com desconhecidos ou com pessoas mau intencionadas.
“O acesso entre crianças de 9 a 17 anos era de 21% ao telefone celular. Hoje, na última pesquisa do ano passado, foi de mais de 70% do acesso à internet por telefone celular. Também, a idade do primeiro acesso tem caído”, Isabella Henriques.
Helton Simões Gomes destaca que o consenso sobre o perigo das redes sociais para crianças cresceu nos últimos anos, impulsionado por casos internacionais e nacionais de violações graves.
Isabella reforça que o aumento do acesso infantil deixou mais visíveis os problemas, como violência, mutilação e danos à saúde mental, alimentados por modelos de negócio que buscam prender a atenção dos usuários a qualquer custo sem a devida preocupação com os efeitos da interação sobre as pessoas.
“Esse aumento de acesso das crianças às redes sociais fez com que houvesse maior visibilidade dos problemas envolvidos nessa utilização. Nós começamos a identificar globalmente, não aconteceu só no Brasil”, Isabella Henriques.
As plataformas até oferecem a pais e mães ferramentas de supervisão, mas elas não resolvem o problema estrutural, já que o design das plataformas segue priorizando retenção de atenção e lucro.
E no Brasil há um fator complicador: a desigualdade socioeconômica. Muitas famílias não conseguem sequer acessar as ferramentas de controle parental. Num ambiente assim, diz a especialista.
“Maiores vulnerabilidades na vida offline estão conectadas a maiores vulnerabilidades na vida online”, Isabella Henriques.
Isabella diz que só a regulação, como o ECA Digital, pode equilibrar a relação desigual entre crianças e empresas de tecnologia. Ela cita o papel da Agência Nacional de Proteção de Dados e do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor na fiscalização e garantia de direitos.
“A regulação vem para apoiar a criança que está num lugar de hipervulnerabilidade, numa relação que é desigual. Não à toa, o comentário geral número 25, o documento do Comitê dos Direitos da Criança da ONU, recomenda aos estados signatários da Convenção sobre os Direitos da Criança que tenham regulação”, Isabella Henriques.
Para Isabella, a regulação brasileira é um passo essencial, mas só será efetiva se aplicada com força pelos órgãos de defesa do consumidor e proteção de dados.
A união de ECA Digital e Código de Defesa do Consumidor
O Estatuto da Criança e do Adolescente nasceu em 1990. Agora, mais de 30 anos depois, o ECA Digital ganha vida para atualizar a lei histórica e transportar a proteção de crianças e adolescentes para o ambiente digital. Ponto fundamental da nova lei é que ela vale também para produtos e serviços digitais que não foram criados especificamente para crianças, mas que podem vir a ser usados por elas.
Em entrevista ao Deu Tilt, Isabella explica que um dos desafios do Brasil é fazer a lei “pegar”. Para isso, a ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) foi alçada ao posto de supervisora do cumprimento da nova legislação. Mas ela não atuará sozinha.
Contará com o Poder Judiciário, outros órgãos públicos e, curiosamente, o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, conta Isabella. Por serem usuários frequentes, as crianças são consumidoras das redes sociais. E traz o Código de Defesa do Consumidor, uma lei que pegou, para o debate da proteção no ambiente digital. Com isso, Ministérios Públicos, Defensorias Públicas e também os Procons passam a ser guardiões para o ECA digital sair efetivamente do papel
‘IA precisa ser para as crianças o sonho que a internet já foi’
Pais e mães podem até não saber, mas crianças já são usuárias entusiastas da inteligência artificial generativa. O uso não é um problema, pois desafio mesmo são as condições em que o contato ocorre, afirma a diretora executiva do Instituto Alana.
As pesquisas até mostram como são as interações dos mais com a IA, que vai das tarefas escolares a relacionamentos íntimos com as máquinas. Sem formação digital ou mediação por parte de responsáveis ou de professores, esse contato pode estar sujeito a manipulação emocional.
“A proposta não é afastar crianças da tecnologia, mas garantir que elas possam usufruir da internet e da IA de forma saudável”, Isabella Henriques.
Isso exige responsabilidade compartilhada entre empresas, poder público e sociedade. A ideia é recuperar para a IA o sonho coletivo que marcou a criação da internet: um espaço seguro, criativo e positivo para crianças. É nesse ponto que o debate vira prática. Isabella cita o hackathon promovido por Alana e Universidade de São Paulo, focado em criar soluções para educação de pessoas com deficiência. Os resultados mostram que quando a sociedade participa do debate tecnológico, a inovação deixa de ser exclusividade das empresas e passando a responder a necessidades reais
Chatbots da China são ‘mais cristãos’ que o Grok, IA de Elon Musk
A responsável pela pesquisa é a Gloo, que cria produtos tecnológicos voltados para igrejas. Ela criou um benchmark para medir o nível de conhecimento espiritual e cristão das IAs. A régua avalia sete dimensões diferentes, que vão desde familiaridade com conceitos bíblicos até a capacidade de responder a dilemas morais a partir de uma visão cristã.
A partir disso, a empresa montou um ranking das plataformas mais “cristãs”. O resultado surpreendeu. O primeiro lugar ficou com o Qwen, modelo de linguagem da chinesa Alibaba, enquanto o último foi o Grok, IA de Elon Musk, empresário conhecido por suas posições conservadoras.
