Trabalhadores da soja relatam lesões e abusos em contratada da Cargill

Dedos amputados, perda de visão e cirurgias na coluna são algumas das cicatrizes causadas pela crescente produção de soja no Brasil. Apenas o transporte do grão pelo rio Madeira, em Rondônia, deixa um legado de trabalhadores com lesões graves decorrentes de acidentes de trabalho e de violações de normas de segurança.

A Repórter Brasil ouviu seis funcionários e ex-funcionários da Transportes Bertolini Ltda. (TBL), empresa contratada pela Cargill para fazer o transporte da soja pelo rio, que sofreram graves acidentes de trabalho, na maior parte das vezes após jornadas irregulares de mais de 30 horas sem descanso.

Além dos problemas de saúde, os trabalhadores se queixam da exposição à poeira repleta de agrotóxicos do grão e da omissão da empresa. Três deles só conseguiram indenizações após entrarem com ações na Justiça.

Célio Albuquerque, 56, trabalhava como marinheiro em dois portos de soja movimentando cabos de aço. Ele conta que, após 19 horas seguidas de trabalho, um cabo soltou e atingiu sua cabeça. “Rasgou meu capacete, quebrou meu nariz e acertou meu olho.”

Albuquerque era integrante da Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) e seis meses antes do acidente enviou para a empresa um relatório, com fotos, mostrando que a estrutura que sustentava o cabo estava avariada.

Após o acidente, ele relata ter escutado dos responsáveis da TBL e da Cargill que receberia assistência médica.

As duas pularam fora e consegui fazer a cirurgia só depois de uma liminar determinando que as empresas pagassem, mas acabei perdendo a visão do olho direito”. Célio Albuquerque, marinheiro.

Cinco anos após o acidente, ele nunca recebeu qualquer tipo de reparação da TBL.

Sem condições de voltar ao trabalho, Albuquerque entrou com um pedido de rescisão indireta na Justiça, alegando outras violações, como o excesso de jornada de trabalho, pois diz que durante a jornada de 48 horas não tinha o tempo adequado para descanso.

Nesse período, passou a tratar um câncer no intestino e também vê ligação entre a dor psicológica e o câncer. “Afetou demais meu estado emocional.”

O também marinheiro James Vasconcelos continua trabalhando na TBL mesmo depois de uma cirurgia na coluna devido a uma hérnia de disco. Ele diz que a recomendação médica é para que ele evite carregar peso, mas o funcionário movimenta os cabos que prendem as balsas de soja, o que exige esforço de todo o corpo.

“Se continuar fazendo isso, o problema pode se agravar, levar novamente a uma hérnia ou me deixar numa cadeira de rodas”. James Vasconcelos, marinheiro.

Antes da cirurgia, a dor era tanta que o marinheiro não conseguia andar. “Depois da cirurgia, fiquei afastado por seis meses e voltei para a mesma função.” Ele teme pedir demissão e não ter condições de saúde para trabalhar em outra empresa.

Vasconcelos trabalha na TBL há 17 anos. Ele relata que é comum ocorrerem desvios de função e que as longas jornadas de trabalho não respeitam o período de descanso. “Já passei 48 horas em cima do píer, trabalhando o tempo todo.”

“Os funcionários sofrem problemas físicos, psicológicos e até mesmo na convivência familiar. São problemas enormes, sem precedentes. Não tem como mensurar”, afirma a advogada Caroline França Ferreira Batista, que representa funcionários e ex-funcionários da TBL.

Acidente com nove mortos em 2017

Não é a primeira vez que a TBL foi alvo de denúncias de desrespeito às normas trabalhistas. Em novembro do ano passado, a empresa foi condenada pela Justiça a pagar R$ 10 milhões por dano moral coletivo por conta de um acidente em 2017, que deixou nove mortos.

Além da multa, a Justiça determinou que a empresa deve instruir os empregados quanto às precauções para evitar acidentes de trabalho.

“A cadeia da soja é de alto risco e com grande número de acidentes de trabalho”, afirma a procuradora chefe do MPT (Ministério Público do Trabalho) em Rondônia e no Acre, Camilla Holanda.

Um ano depois do acidente, o órgão apertou o cerco e realizou duas forças-tarefa fiscalizando os portos do Norte. Foram encontradas mais de cem infrações trabalhistas, que atingiram 14 das 17 empresas que atuam no rio Madeira —a TBL era uma delas.

Procurada, a TBL afirmou, por meio de seu gerente jurídico, Fernando Parisotto, que o ambiente de trabalho da empresa “é absolutamente seguro e que são respeitadas rigorosamente todas as normas de medicina e segurança no trabalho, bem como todos os riscos são controlados”.

Sobre Albuquerque, a empresa afirmou que o funcionário não teve seus pedidos atendidos pela Justiça trabalhista e que ação ingressada pelo MPT apontando acúmulo de atividades e jornada exaustiva foi considerada improcedente.

Com relação a Vasconcelos, Parisotto respondeu que as atividades executadas no ambiente de trabalho são “compatíveis com as condições físicas e psicológicas de cada empregado”. Disse também que Vasconcelos é marinheiro, mas que executa “atividades burocráticas compatíveis com a recomendação médica”.

A Cargill, contratante da TBL, afirmou que eles não são funcionários da empresa e que “realiza monitoramento constante, avaliando todos os fornecedores”. Leia as respostas na íntegra.

Jornada de 48 horas sem descanso

O comandante da embarcação Simeão Furtado Passos conta ter pegado “três hérnias de disco trabalhando lá” [na TBL]. A escala de trabalho era de 48 horas por 48 horas, e Passos afirma que não havia como descansar.

“Os camarotes não tinham ar-condicionado nem ventilador. Mais de 40 graus”. Simeão Furtado Passos, comandante de embarcação.

Passos diz que chegou a reivindicar melhorias nos alojamentos, pois era comandante, mas ouviu como resposta do gerente que não era possível.

O comandante, também ex-funcionário, Francisco Nascimento Barros classifica a cabine em que trabalhava como insalubre. “É desumano. Escravidão não é só chicote”, diz.

Durante a jornada de 48 horas, Barros relata que precisava estar disponível o tempo todo.

Além do descumprimento de leis trabalhistas, os trabalhadores da soja no porto são pressionados pela crescente produção do grão nos últimos anos, que em 2021 deve ter alta de 8,5% em relação à safra de 2020, segundo o IBGE(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). As exportações também seguem em alta, sendo a Cargill a principal exportadora do grão brasileiro.

O marinheiro José Cláudio Manoel Uchôa, que está afastado do trabalho na TBL há três anos por problemas de saúde, afirma que os trabalhadores costumam ser contemplados na primeira instância judiciária, mas perdem na segunda.

“Eles [Cargill e TBL] têm um corpo jurídico muito grande e, Deus me perdoe, mas devem ter influência dentro dos tribunais”, afirma, enquanto mostra os dois dedos da mão deformados pelo trabalho. Em casa, um pote preto está lotado de remédios, que ele toma para suportar as dores.

“Tenho sequelas para o resto da vida e me arrependo de não ter saído do emprego”, afirma Marcelo Inácio Dias, ex-funcionário da TBL, aposentado por invalidez.

Dias ficou com problemas na coluna mesmo após uma cirurgia, sente dores no ombro, no joelho e ficou com um dedo da mão imobilizado por causa de um acidente. Teve problemas também por conta dos agrotóxicos aplicados aos grãos.

Dias lamenta que a TBL e a Cargill não paguem os direitos trabalhistas devidos e que os funcionários precisem pedir judicialmente. “Para eles é pouquinho, mas para a gente é muito. Precisamos desse dinheiro para tentar recomeçar a vida e seguir em frente.”

Fonte: Repórter Brasil

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