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‘Uma tortura’: dona do ChatGPT pagou até US$ 2 para humanos treinarem IA

Funcionários da Sama no Quênia; a serviço da OpenAI, empresa contratou quenianos para deixar ChatGPT menos tóxico - Divulgação/Quênia
Funcionários da Sama no Quênia; a serviço da OpenAI, empresa contratou quenianos para deixar ChatGPT menos tóxicoImagem: Divulgação/Quênia

Se você usa alguma IA (Inteligência Artificial) de big tech não é temerário afirmar que ela só existe porque houve por trás a exploração de pessoas mal remuneradas e psicologicamente abaladas. Foi o que aconteceu com o popular ChatGPT, de acordo com investigação da revista Time. No Brasil, essa modalidade de emprego relacionada à IA já chegou aos tribunais trabalhistas.

Tilt mostrou em reportagem especial como é a vida dura de microtrabalhadores brasileiros.

Antes de o popular chatbot ganhar holofotes e chegar a milhões de usuários pelo mundo, trabalhadores do Quênia foram recrutados pela Sama, empresa terceirizada da OpenAI, para treinar dados do ChatGPT. Eram eles que ajudavam a a detectar linguagem tóxica na IA, como discurso de ódio, de abuso sexual e que continha violência.

Para isso, os trabalhadores recebiam de US$ 1,32 a US$ 2 por hora, segundo documentos analisados pela Time. O valor era bem abaixo do que a OpenAI pagava à Sama em contrato, US$ 12,50 por hora.

Três funcionários contaram à Time que deveriam ler e ressignificar por jornada de trabalho entre 150 a 250 textos, que continham de cem a mil palavras. Seria uma espécie de filtro humano dos dados brutos do ChatGPT antes de chegar aos usuários. Tudo em um expediente que chegava a nove horas.

Os trabalhadores contaram que ficaram mentalmente abalados pelo trabalho. Um deles relatou ter ficado traumatizado após ver a descrição gráfica da cena em que um homem abusava sexualmente de um cachorro na presença de uma criança.

“Foi uma tortura. Você vai ler uma série de declarações como essa durante toda a semana. Quando chega a sexta-feira, você fica perturbado por pensar naquela imagem”, contou ele sob condição de anonimato à Time.

Os percalços para treinar o ChatGPT fizeram a Saman encerrar o contrato com a OpenAI oito meses antes do previsto, em fevereiro de 2022. Em novembro do mesmo ano, o chatbot explodiu mundo afora.

A OpenAI confirmou à revista que quenianos trabalharam para detectar conteúdo tóxico incorporado ao ChatGPT. “Classificar e filtrar [textos e imagens] nocivos é uma etapa necessária para minimizar a quantidade de conteúdo violento e sexual.”

Prática não é exclusiva do ChatGPT

O uso de trabalhadores para abastecer ferramentas de IA sob condições precárias não é exclusivo da OpenAI e tem nome: trata-se do chamado “crowdwork” ou microtrabalho.

“Apesar do papel fundamental desempenhado por esses profissionais de enriquecimento de dados, um crescente corpo de pesquisa revela as precárias condições de trabalho que esses trabalhadores enfrentam”, comentou à Time Partnership on AI, uma coalizão de organizações de IA à qual a OpenAI pertence.

“Isso pode ser o resultado de esforços para esconder a dependência da IA dessa grande força de trabalho ao comemorar os ganhos de eficiência da tecnologia”, Partnership on AI.

Em outra reportagem, de fevereiro de 2022, a Time mostrou que a mesma empresa, a Sama, contratou quenianos por US$ 1,50 a hora para moderar conteúdos relacionados a estupro e abuso infantil no Facebook.

Para Martha Dark, diretora da ONG Foxglove, que luta contra práticas abusivas de trabalho das Big Tech, as empresas de tecnologias buscam a terceirização para pagar cada vez menos enquanto lucram cada vez mais.

“Todas essas empresas são multibilionárias e é francamente inadequado que estejam pagando US$ 2 por hora para as pessoas que tornam essas plataformas possíveis”, Martha Dark.

Imigrantes também se tornam vulneráveis das IAs

Já nos EUA, empresas pagavam para imigrantes valores de US$ 0,08 a US$ 0,33 a cada frase traduzida de inglês para outro idioma. O material abasteceria uma plataforma de IA, segundo uma reportagem de 2019 do Seattle Times.

Na Colômbia, imigrantes venezuelanos são treinados para abastecer IAs - Divulgação/DignifAI  - Divulgação/DignifAI
Na Colômbia, imigrantes venezuelanos são treinados para abastecer IAs Imagem: Divulgação/DignifAI

Prática semelhante é vista na Colômbia, onde imigrantes venezuelanos são recrutados por US$ 2 para alimentar plataformas de IAs através da empresa DignifAI, segundo a BBC.

“Muitas pessoas criticam nosso setor pela questão salarial, mas na DignifAI nosso piso salarial é de US$ 2,30 a hora, o que representa 1,8 vezes o salário mínimo na Colômbia”, Enríque Garcia, representante da empresa.

No Brasil, o microtrabalho destinado às IAs chegou aos tribunais

Em março deste ano, o TRT2 (Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região) reconheceu o vínculo empregatício de uma colaboradora freelancer com uma empresa de IA de São Paulo.

No caso brasileiro, o pagamento era de R$ 0,11 por minuto, o que forçava a mulher a trabalhar longas jornadas para supervisionar o atendimento virtual de um robô a clientes e intervir se necessário.

Já um estudo publicado em 2020 com “turkers” brasileiros revela precarização semelhante. O termo se refere às pessoas que atuam no Amazon Mechanical Turk, plataforma da Amazon para empresas contratarem microtrabalhadores.

O estudo aferiu que “a média de horas semanais de trabalho dos turkers brasileiros é de cerca de 17 horas”, o que é menor em comparação com outros países. Por outro lado, o dado mostra que essas horas não contabilizam o segundo emprego dos turkers, pois 57% dizem que possuíam outro emprego. Ou seja, eles se dividiam entre vários microtrabalhos e jornadas de 44 horas semanais no trabalho comum para poder aumentar a renda.

O estudo mostrou ainda que:

  • 52,3% trabalhavam, na ocasião do estudo, na plataforma há menos de dois meses;
  • 44% afirmaram trabalhar para algum outro serviço de microtrabalho e/ou crowdwork;
  • 43% não têm outro emprego além dos serviços de crowdwork. Daqueles, 66,1% estão sem emprego formal há mais de um ano;
  • 54,4% brasileiros sentem que não recebem uma remuneração justa pelo trabalho.

“Isso leva à conclusão de que os trabalhadores do Brasil (e potencialmente de outros países do Sul Global) dependem desigualmente dessas plataformas para sobreviver, enquanto ainda recebem um salário muito baixo”, Bruno Moreschi, Gabriel Pereira, Fabio G. Cozman, autores da pesquisa.

Fonte: Tilt/UOL

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