Audiência no Senado: Bolsonaro e Pazuello terão de responder por ‘genocídio’

Depois de longa audiência pública no plenário do Senado, chamada de “sessão temática de debates”, que durou em torno de 5 horas, em que vários senadores fizeram, nesta quinta-feira (11), muitos questionamentos à atuação do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, no combate à pandemia do coronavírus, o governo e o ministro foram chamados de “genocidas”

O senador capixaba Fabiano Contarato (Rede-ES) foi o mais duro e enfático nas críticas ao ministro. Ele disse que o presidente Jair Bolsonaro e Pazuello terão de responder a processos por “genocídio”.

“Quase 10 milhões de brasileiros contaminados, 235 mil mortos. Quanto vale a vida humana? Quanto que vale a vida de uma filha, de um filho, de um pai, de um avô? Senhor ministro e presidente da República, as digitais de vocês estão nessas mortes. E eu tenho fé em Deus que tanto o senhor quanto o presidente da República irão responder por genocídio, seja aqui no Brasil, seja no Tribunal Penal Internacional”, disse Contarato.

Genérico e contraditório
Pazuello disse na audiência pública que pretende aplicar a vacina contra a Covid-19 nos grupos de maior risco até o fim de 2021. Sem citar números, falou que o governo quer distribuir metade das doses até junho e a outra até o fim do ano.

“Nós vamos vacinar o País em 2021: 50% até julho e 50% até dezembro. Da população vacinável. Esse é o nosso desafio, é o que nós estamos buscando e vamos fazer”, disse o chefe da pasta, mas sem explicar quem faz parte da tal “população vacinável”.

A previsão feita pelo Ministério até então era imunizar todos os brasileiros do grupo de maior risco para a Covid-19 até o fim do 1º semestre de 2021. Segundo o ministro, a vacinação da população em geral seria concluída nos 12 meses seguintes. Não foram estipulados o dia de início da imunização ou a vacina que será usada.

Promessa de vacinação em massa
Ao se pronunciar, inicialmente, Pazuello prometeu que o Brasil estará logo entre os primeiros países do mundo em número de vacinados contra a Covid-19. Até o momento, disse, já foram distribuídas 11 milhões de doses de vacinas, sendo que 5 milhões já foram aplicadas na população.

O ministro reconheceu que as doses de que o Brasil dispõe são insuficientes, mas garantiu que o governo vai adquirir todos os tipos de vacinas contra a doença para promover a imunização. Ele também reconheceu ser preciso produzir vacinas em território nacional, para reduzir custos e evitar que o País fique na dependência de outros países.

“Estaremos muito em breve entre os primeiros países do mundo em números totais e percentuais. Estão funcionando entre 27 e 38 mil postos de vacinação, temos 2 fábricas da Fiocruz e Butantan produzindo imunizantes. Temos negociações com outros laboratórios. Para vacinar nosso país, com a nossa população, precisamos fabricar vacinas. Esse é o verdadeiro destino do nosso país. Vamos fabricar vacinas para o Brasil e a América Latina. Não podemos contar com laboratórios que nos vendam apenas as vacinas. Temos que compreender que os números não são suficientes para atender o país. Vamos comprar todas [vacinas]. Teremos muitas vacinas diferentes e dificuldade de coordenar as ações no País”, afirmou.

“Negacionista”
O modo como o governo enfrenta a pandemia foi alvo de críticas de vários parlamentares na audiência temática. Para senadora Simone Tebet (MDB-MS), o governo foi “negacionista”.

“Vossa excelência diz que, nos últimos 90 dias, os números inacreditáveis da segunda onda pegaram todos de surpresa… Como surpresa, ministro? Cientistas, médicos, especialistas, todos nós, noite e dia, convivendo com essa escalada de mortes em todos os estados do Brasil”, abriu as críticas apontado essa contradição do ministro.

Colapso em Manaus
Na audiência, o ministro afirmou sobre o colapso sanitário em Manaus (AM) que gestores locais e o relatório da Força Nacional do SUS (Sistema Único de Saúde), de 8 de janeiro, não indicaram falta de oxigênio, mas de “rede” de oxigênio no começo deste ano. Na ocasião, o sistema de saúde de Manaus colapsou, e pessoas infectadas pela Covid-19 morreram por falta de oxigênio.

Cobrado a dar explicações sobre a situação no Amazonas, Pazuello disse que, em nenhum momento, no documento do dia 8 de janeiro, falou-se em “falta de oxigênio”. E fez o seguinte comentário sobre o que é apontado no relatório: “Rede de gases são os tubos de gases, e não o oxigênio que vai dentro. Pressurização entre o município e o estado é regulação entre um e outro”, disse.

Líder do MDB na Casa, o senador Eduardo Braga (AM) criticou a explicação de Pazuello, que, segundo o parlamentar, não é verdadeira.

“Desculpe-me, esse relatório que falou de rede pressurizada entre município e estado com relação a oxigênio — essa rede não existe, ministro, essa rede não existe. Portanto, não é possível dizer que a falta de oxigênio no Amazonas foi em função de falta de pressão entre redes inexistentes. Isso não é verdade”, questionou Braga.

Inquérito
Pazuello é alvo de inquérito que investiga se houve omissão do ministro em relação à crise sanitária no Amazonas. Na semana passada, ele prestou depoimento à Polícia Federal. O inquérito foi aberto por determinação do ministro Ricardo Lewandowski, do STF (Supremo Tribunal Federal), que atendeu pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República).

No pedido do inquérito, a PGR argumentou que o Ministério da Saúde recebeu informações sobre um possível colapso do sistema de saúde na capital do Amazonas ainda em dezembro, mas só enviou representantes ao estado em janeiro deste ano.

CPI da Covid-19
O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) disse, quarta-feira (10), que a presença do ministro no Senado iria contribuir para a avaliação da necessidade de CPI da Covid-19. O ministro compareceu à sessão temática, nesta quinta-feira, para falar sobre a falta de oxigênio hospitalar no Amazonas e detalhar o plano nacional de vacinação. O senador Rogério Carvalho (PT-SE) ponderou que os trabalhos da CPI durariam mais tempo e não se restringiriam a esses temas.

A CPI da Covid-19 está na pauta e é encabeçada pelo senador Randolfe Rodrigue (Rede-AP). O pedido de instalação de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) foi assinado por 30 senadores e protocolizado em 4 de fevereiro.

Se a CPI for instalada vai investigar a atuação do governo federal no enfrentamento da pandemia. O objetivo é, ressalta Randolfe Rodrigues, “apurar erros e omissões que ocorreram no enfrentamento da pandemia”. O senador também destacou que é preciso investigar a falta de oxigênio no Amazonas.

Fonte: Hora do Povo

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