Com Musk na liderança, Twitter vê disparar discurso de ódio e abuso contra trabalhadores

Em um mês como proprietário, Musk alimentou fake news, violentou trabalhadores e agora pode fazer ruir a rede digital

Em um mês como proprietário, Musk alimentou fake news, violentou trabalhadores e fez temer pelo fim da rede digital – Christophe Gateau/DPA/AFP

A hashtag #RIPTwitter foi um dos trends na noite de quinta para sexta (18), tudo porque se chegava ao ápice de mais uma das politicas de abuso de Elon Musk, que adquiriu o twitter há cerca de um mês. 

Musk, que já foi conselheiro de Donald Trump, na terça (15), forçou que centenas de funcionários do Twitter optassem pela demissão em massa. O fechamento ocorreu cerca de uma hora após o prazo que Musk pediu aos funcionários do Twitter quw assinassem oficialmente seu novo plano “extremamente hardcore” para a empresa, que pedia uma dedicação excessiva por parte dos trabalhadores. Menos de 50% da equipe que restou da empresa, algo em torno de 4 mil pessoas, se inscreveu para trabalhar no “Twitter 2.0”, como informou o portal Business Insider, o que significa que eles efetivamente se demitiram sob os termos oferecidos por Musk no ultimato da terça-feira. Basicamente, em um email endereçado à equipe, ele pedia compromisso absoluto ou o desligamento daqueles que não aceitassem esse novo formato de trabalho.

Esse movimento de “demissões” fez com que, de quinta (17) para sexta (18), o empresário fechasse imediatamente os escritórios da rede de microblogs.

​​Esta é a segunda vez que os escritórios do Twitter fecham subitamente desde que Musk assumiu a companhia. A empresa fechou escritórios e impediu a entrada de funcionários na noite em que Musk começou a demissão em massa, cerca de três semanas atrás. 

O fechamento de quinta-feira ocorreu uma semana depois que Musk enviou seu primeiro e-mail remodelando a política da empresa, dizendo que o trabalho remoto na empresa não era mais aceitável, exceto para aqueles que fazem um trabalho “excepcional”. Nos dias que se seguiram, Musk suavizou sua posição sobre o trabalho remoto, dizendo que continuaria sendo permitido mediante a aprovação de um gerente.

Um discurso de ódio

Nas primeiras 12 horas que Elon Musk assumiu o cargo de CEO do Twitter, o discurso de ódio na rede de microblog disparou 800%, segundo um estudo compilado por pesquisadores da Montclair State University.

De acordo com os envolvidos, o “discurso de ódio” em questão não tem nada a ver com discussões políticas e/ou insultos ordinários, mas com palavras que historicamente carregam grande violência – “são termos tão agressivos que eu seria incapaz de reproduzi-los aqui”, comentou à reportagem do Brasil de Fato Bond Benton, professor de comunicação na Montclair State University e líder de análise de redes sociais.

Ele explica que a pesquisa foi feita para provar uma teoria já bastante conhecida: com a redução da moderação de conteúdo, acontece, inevitavelmente, a disparada no discurso de ódio. “A grande questão é que queríamos medir quanto tempo levaria para ver essa mudança, e o resultado foi surpreendente, porque a diferença era notável em questão de horas”, disse.

Ainda de acordo com Benton, esses dados devem ser alarmantes porque as palavras de ódio, em algum momento, se convertem em ações e cita o tiroteio de Buffalo, em 14 de maio de 2022, como um bom exemplo disso. Na ocasião, o supremacista branco Payton Gendron, de 18 anos, abriu fogo em um supermercado localizado num bairro majoritariamente negro, matando 10 pessoas e ferindo outras cinco. “Gendron publicou um manifesto explicando por que ele conduziu esse ataque terrorista racista. Fizemos uma análise de dados neste documento, para descobrir de onde veio todo o conteúdo, e descobrimos que o manifesto é, em grande parte, um documento plagiado de fontes específicas: redes sociais não-moderadas”. 

Sempre disposto a se ver e se vender como herói, Elon Musk defende a baixa na moderação do Twitter como um ato de resistência e louvor à liberdade de expressão. Musk, aliás, de auto-intitulou em diversas oportunidades como um “absolutista da liberdade de expressão” – um ponto bastante sensível na sociedade americana, que é particularmente obcecada pela ideia de a liberdade ser a habilidade de se fazer tudo o que quiser, a qualquer momento.

O que Elon Musk quer?

Rich Jarolovsky, professor na Universidade de Berkeley, questiona ao Brasil de fato o enquadramento do debate da liberdade de expressão posta por Musk. “A liberdade de expressão é um direito legal, garantido na constituição dos Estados Unidos. Mas o que isso significa, e o que a Primeira Emenda da Constituição dos EUA significa, é que o governo não pode censurar ou punir as pessoas por suas crenças ou pelo que dizem. Twitter não é o governo dos Estados Unidos. O Twitter é uma empresa privada, que faz escolhas no tempo. E embora você tenha o direito constitucional de expressar uma opinião, não há direito constitucional de ter uma empresa privada, como o Twitter, fornecendo uma plataforma e um megafone para amplificar o que você diz. Essa é uma escolha que o Twitter ou o Facebook ou qualquer rede social faz. E é uma declaração de valores acima de tudo. Então, a discussão sobre liberdade de expressão no Twitter, para mim, até certo ponto, é um pouco falsa. Esse não é o verdadeiro problema. A verdadeira questão é que tipo de valores Elon Musk quer que o Twitter tenha?”. 

Curiosamente, o “absolutista da liberdade de expressão” não pensou duas vezes antes de aplicar a censura a quem lhe incomoda. As humoristas Sarah Silverman e Kathy Griffin foram suspensas da rede social depois de se passarem por Elon Musk – no caso de Griffin, a suspensão é permanente. Ambas fizeram uso da ferramenta de verificação – que antes era gratuita e exclusiva à perfis com grande impacto, mas com Musk passou a ser cedida por meio de pagamento – para se passar pelo CEO do Twitter e mostrar o quão perigoso pode ser o caminho que a empresa está tomando.

A partir desta repercussão, o homem mais rico do mundo, com uma fortuna de quase 200 bilhões de dólares, veio a público explicar que qualquer tipo de plágio não seria aceito no Twitter.

A pressão por algum tipo de moderação veio também dos investidores, e Musk finalmente anunciou que haverá um “conselho” moderador, mas não detalhou quem vai compor o grupo e como ele agirá.

Vale lembrar que há poucas semanas o empresário, que acumula a função de CEO em outras 3 empresas, entre ela a Tesla, teve de se defender em um tribunal de um processo de um grande acionista da fabricante de carros elétricos. Musk foi acusado de não respeitar os termos previstos em contrato, que prevê, por exemplo, um conselho independente. O empresário foi fotografado em viagens com alguns dos conselheiros, e confirmou que mantém relações pessoais com alguns deles.

Outras acusações têm a ver com a falta de aprovação junto ao conselho para decisões estratégicas da companhia e enriquecimento pessoal.

Fonte: Brasil de Fato

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