Greves gerais que marcaram a história

Em mais de cem anos de greves gerais, os trabalhadores deixaram sua marca na história brasileira

Comemoração do 1º de maio de 2019 no Anhamgabaú, onde foi lançada a greve geral pelas centrais CUT, Força Sindical, UGT, CTB, Nova Central, CSB, CONLUTAS, Intersindicais, e CGTB Foto: Jaelcio Santana

Por José Carlos Ruy

A greve geral que ocorre nesta sexta-feira (14) em todo o Brasil, envolvendo todas as categorias profissionais, vai ficar na história.
Os trabalhadores param, hoje, contra a reforma da Previdência que o presidente de direita, Jair Bolsonaro, quer impor ao país, em defesa da aposentadoria digna, do emprego e da educação. A proposta de reforma da Previdência “encaminhada ao Congresso não combate desigualdades nem tampouco privilégios. Prejudica os mais pobres e só beneficia os ricos, sobretudo banqueiros e grandes empresários”, acusa a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

A greve geral que ocorre faz parte de uma série já centenária de movimentos da luta do povo e dos trabalhadores pela conquista e garantia de direitos gravemente ameaçados desde a ascensão do usurpador Michel Temer, levado à presidência da República pelo golpe de 2016, e desde a posse do radical de direita Jair Bolsonaro, levado à chefia da Nação pela suspeita eleição de 2018.
Este artigo vai referir-se a algumas greves, que foram de natureza econômica e também política, com o objetivo de rememorar a intensa luta do povo e dos trabalhadores.

Manifestação de operários contra a carestia da vida, s/I, s/d. Coleção História da Industrialização no Brasil, São Paulo, foto 360. Arquivo Edgard Leuenroth.

Há mais de cem anos, em junho da 1917, teve início no Cotonifício Crespi, na Mooca, em São Paulo, a primeira greve geral ocorrida no Brasil, na qual as mulheres tiveram desempenho decisivo. A greve logo se espalhou pela capital paulista, ganhou a adesão de cidades do interior e,depois, repercutiu em estados como o Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Pernambuco. Durou 30 dias, em defesa de uma pauta que incluia aumento salarial, regulamentação da jornada diária de trabalho (que podia chegar a 16 horas!), do trabalho de mulheres e crianças, e melhores condições de trabalho.
A brutal repressão deixou mortos e feridos, e provocou a solidariedade da população e outras categorias profissionais. Em julho a cidade de São Paulo parou, no dia 11, para acompanhar o enterro do sapateiro José Martinez, assassinado a tiros pela polícia.

Manifestação operária em São Paulo, 1953

Anos mais tarde, em 1953, ocorreu em São Paulo aquela que ficou conhecida como a “Greve dos 300 mil” que, embora não tenha tido o caráter de greve geral, deixou uma marca importante na luta dos trabalhadores. Teve início, como na greve de 1917, entre os trabalhadores têxteis, ganhando depois a adesão de setores como vidraceiros, metalúrgicos, gráficos e marceneiros . Todos lutavam por melhores salários e contra o extorsivo custo de vida. Uma semana antes do início da greve ocorreu, em São Paulo, no dia 18 de março, a passeata da “Panela Vazia”, que mobilizou 60 mil pessoas. O Partido Comunista do Brasil e seu dirigente, Carlos Marighela, tiveram forte atuação na organização do movimento e na articulação dos vários segmentos de trabalhadores. O resultado da greve foi positivo, resultando num aumento salarial de 32% e, logo mais, influindo na nomeação de João Goulart para o ministério do Trabalho. Naqueles anos, entre idas e vindas, a luta dos trabalhadores teve grande avanço, passando das pautas econômicas para aquelas claramente políticas.

Em junho de 1962, por exemplo, a mobilização do Comando Nacional de Greve (futuro Comando Geral dos Trabalhadores – CGT) barrou a a nomeação do senador conservador Auro de Moura Andrade como primeiro ministro – sob ameaça de greve geral. A greve geral de fato ocorreu em 5 de julho, e Goulart nomeou o progressista Francisco Brochado da Rocha para o cargo. A greve foi duramente reprimida, sobretudo no Rio de Janeiro, onde o “motim da fome” levou a saques, havendo violenta repressão policial, com mais de 50 mortos. Houve paralisações em Belém, Belo Horizonte, Campina Grande (PB), Criciúma SC), Cubatão (SP), Fortaleza, Itajaí (SC), Paranaguá (PR), Recife, Salvador, São Paulo, Santos (SP), Vitória, entre outras cidades. E teve um resultado importante para os trabalhadores – influenciou na aprovação da lei 4090/62, que criou o 13º salário.

Em 15 de setembro de 1962 outra greve geral defendeu a antecipação da data do plebiscito para decidir entre o presidencialismo e o parlamentarismo – que havia sido imposto pelos ministros militares após a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961. A antecipação do plebiscito foi aprovada pelo Congresso para o dia 6 de janeiro de 1963, sendo o presidencialismo amplamente vitorioso (com mais de 80% dos votos), numa autêntica eleição do presidente João Goulart.

O golpe militar que, em abril de 1964, encerrou a democracia no Brasil e instaurou a ditadura militar, reprimiu a luta democrática dos trabalhadores, mas não a encerrou. Em 1968 ocorreram as greves em Contagem, MG (16 de abril), e Osasco, SP (16 de julho ), as primeiras grandes greves ocorridas sob a ditadura, parando milhares de metalúrgicos em defesa de melhores salários e condições de trabalho. A repressão foi, como sempre, extremamente violenta. Mesmo depois da repressão acentuada após aquelas greves, as lutas dos trabalhadores continuaram, em atividades mais restritas, como operações-tartaruga e ações desse tipo.

Greve na Scania em 1978

A luta aberta renasceu dez anos depois nas greves dos metalúrgicos em São Bernardo do Campo. A greve iniciada em 12 de maio de 1978, na fábrica da Scânia, esteve na origem do movimento que, naqueles anos, confrontou a ditadura militar. Em 1978, a luta era por melhores salários e em protesto contra a manipulação do índice da inflação que, em 1973, impôs grande perda salarial aos trabalhadores. A greve logo se espalhou no estado de São Paulo. Em 1979, nova onda grevista, por melhores salários e condições de trabalho, teve início também no ABC paulista, e se espalhou pelo Brasil. Da mesma forma como a grande greve de abril-maio de 1980 que, embora não tenha obtido ganhos econômicos, infringiu decisiva derrota política à ditadura e desmoralizou sua política de abertura lenta, gradual e controlada.

Outra greve geral marcante foi a de 12 de dezembro de 1986 – a primeira que ocorre depois do fim da ditadura militar. O estopim foram as as mudanças econômicas anunciadas pelo governo de José Sarney, o chamado Plano Cruzado II, que congelou preços e salários, a pretexto de combater a inflação. Foi convocada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e pela Central Geral dos Trabalhadores (CGT), e incluía entre as reivindicações, o não pagamento da dívida externa brasileira. Cerca de 25 milhões de trabalhadores aderiram, em todo o país.

Em 20 de agosto de 1987 houve nova paralisação, convocada pelas duas principais centrais sindicais – a CUT e a CGT. O alvo era o Plano Bresser implantado pelo governo Sarney, que também congelou preços e salários, com o mesmo pretexto de combater a inflação.

Desde 1988 o direito de greve foi reconhecido constitucionalmente, como um direito fundamental dos trabalhadores. sendo registrado no artigo 9º da Constituição Cidadã. Direito que os trabalhadores continuaram usando em defesa de seus direitos e reivindicações.

Como a greve geral de 14 e 15 de março de 1989, que até recentemente foi considerada a maior realizada no Brasil, envolvendo 35 milhões de trabalhadores. Convocada pela CUT e CGT, protestava contra a inflação, que atingiu 1.782,9% ao ano, e rejeitava o Plano Verão, adotado pelo governo Sarney, baseado na mudança do rendimento da caderneta de poupança e no congelamento de preços e salários.

Os trabalhadores voltaram a parar nos dias 22 e 23 de maio de 1991, na greve geral de 48 horas, convocada pela CUT, Central Geral dos Trabalhadores e Confederação Geral dos Trabalhadores. Mais de 19,5 milhões de trabalhadores aderiram, em protesto contra o governo de Fernando Collor de Mello, por garantia no emprego e exigindo reposição de perdas salariais, em defesa dos serviços públicos e pelo fim do aumento abusivo nos preços dos aluguéis e prestações da casa própria.

Em 21 de junho de 1996, a luta dos trabalhadores – tendo à frente as centrais CUT, Força Sindical e CGT – voltou-se contra a política econômica neoliberal do governo de Fernando Henrique Cardoso. Mais de 12 milhões de trabalhadores pararam, contra as privatizações e o desemprego; exigiam melhores condições de emprego, aumentos salariais, defendiam a aposentadoria, a reforma agrária e a garantia de seus direitos sociais.

A greve geral, como instrumento de luta em defesa dos direitos sociais e econômicos do povo e dos trabalhadores, volta a aparecer no cenário político brasileiro em 2017, depois do golpe de Estado de 2016, que depôs a presidenta legítima Dilma Rousseff e colocou, em seu lugar, o usurpador Michel Temer – que logo mostrou a que veio, investindo pesadamente contra direitos históricos conquistados pelos trabalhadores depois de lutas intensas. Temer promoveu, nesse sentido, a chamada reforma trabalhista, que jogou a CLT e os direitos dos trabalhadores na lata do lixo.

Trabalhadores de Guarulhos-SP participam das manifestações de 28 de abril de 2017 Foto: Arquivo Centro de Memória Sindical

Contra as reacionárias reformas da Previdência e trabalhista de Temer nove centrais sindicais, entre elas a CTB, a CUT e a Força Sindical, convocaram a greve geral de 28 de abril de 2017, que teve adesão de 40 milhões de trabalhadores em todos os estados do país.

A história mostra, mesmo em um levantamento sucinto como o apresentado neste artigo. que a disposição e capacidade de luta dos trabalhadores brasileiros está presente em todos os momentos decisivos na história, levantando alto as bandeiras políticas da democracia e da soberania nacional, e sociais, dos direitos do povo.

Os trabalhadores brasileiros não se rendem nem abaixam a cabeça, como ficou demonstrado pelos mais de 45 milhões que nesta sexta-feira histórica, 14 de julho de 2019, pararam em defesa de seus direitos e do progresso social, ameaçados pelo governo de direita de Jair Bolsonaro.

Fonte: Rádio Peão Brasil

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