Artigos de menuUltimas notícias

Mercado aquecido amplia escolhas, mas estimula ‘apagão’ de mão de obra

Setores com jornada aos finais de semana são os mais afetados pela falta de mão se obra
Setores com jornada aos finais de semana são os mais afetados pela falta de mão se obraImagem: Mart Production/Pexels

No momento em que a taxa de desemprego do Brasil aparece no menor nível da história, cresce o número de empresários que têm relatado dificuldade para contratar e reter profissionais. A situação é justificada pelo aquecimento do mercado de trabalho e pela migração para empregos de maior remuneração e jornada de trabalho mais flexível.

Setores relatam escassez de mão de obra. As queixas envolvem a ausência de profissionais em diversos setores. Caroline Nogueira, diretora-executiva da rede de refeições corporativas Premium Essential Kitchen, classifica a situação como recorrente no setor de serviços, mas relata que o cenário foi agravado pelos hábitos desenvolvidos no início da década.

“As pessoas encontraram empregos alternativos na pandemia e não estão mais buscando carreiras ‘engessadas'”, Caroline Nogueira, diretora da Premium Essential Kitchen.

Estudos comprovam a situação do mercado de trabalho. Levantamento realizado pela Fecomercio-SP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo) e pelo CCA (Conselho do Comércio Atacadista) indica que a falta de mão de obra é um problema encarado pelo setor. Os dados ilustram uma evolução tímida do número de funcionários, apesar do recente aquecimento do mercado de trabalho.

“Apagão” da mão de obra lidera o temor dos setores. Segundo pesquisa divulgada no início deste ano pela consultoria PwC, a falta de profissionais qualificados na indústria e no comércio preocupa 41% dos empresários. O percentual é superior aos temores relacionados a crimes cibernéticos (31%) e ao avanço da inflação (28%).

Maior escassez afeta as chamadas “vagas de entrada”. O primeiro emprego e os empregos para aqueles sem experiência no ramo de atuação são citados como o principal gargalo. Rodolpho Tobler, economista do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), afirma que o cenário esvazia, principalmente, as colocações de baixa remuneração e carga horária de trabalho elevada.

“À medida que as pessoas conseguem outras ocupações um pouco melhores, elas tendem a não procurar tanto essas vagas [de elevada carga de trabalho e salários mais baixos]”, Rodolpho Tobler, economista do Ibre/FGV.

Tempo de permanência nos cargos também diminui. O estudo da Fecomercio mostra também que o período médio de permanência dos profissionais no setor atacadista reduziu 7% entre 2015 e 2024. A queda dobra entre os profissionais mais jovens, com idade entre 14 e 25 anos. “Eles não ficam mais nem um ano no mesmo trabalho”, observa Bruno de Souza Pinto, assessor econômico da associação.

O que motiva a escassez

Menor taxa de desemprego da história amplia leque de opções. A maior facilidade para encontrar uma nova colocação permite que os trabalhadores façam escolhas e abandonem os postos de trabalho sem temor. “As pessoas têm conseguido se realocar para um emprego melhor por vontade própria. […] Quando há uma geração de vagas muito grande, é natural que prefiram empregos que remunerem mais ou que ofereçam benefícios superiores”, afirma Tobler.

O pleno emprego é uma conquista para o país, mas, para o empresário atacadista, tornou-se também uma batalha diária encontrar e reter bons profissionais. O capital humano virou o grande diferencial competitivo.Ronaldo Taboada, presidente do CCA

Profissionais procuram atividades com maior flexibilidade. A percepção é levantada por Rubens Batista, CEO do grupo atacadista Martins. Ele avalia que o cenário é relatado por todo o segmento. “Essa mudança de perfil profissional aumenta a concorrência pelos mesmos recursos e torna a atração e retenção mais desafiadora”, afirma. Ele diz atuar para ajustar os horários para “atrair, engajar e reter talentos”.

Escala 6×1 afasta os profissionais de determinadas funções. Tema amplamente debatido no Congresso nos últimos meses, a escala de trabalho com somente uma folga semanal é determinante para a fuga de cargos que exigem o trabalho aos finais de semana. Lucia Garcia, economista do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), afirma que o modelo de jornada representa o sacrifício em troca da perda de qualidade de vida. “São exigências que levam o trabalhador à exaustão”, lamenta ela.

Mentalidade dos profissionais mais jovens rejeita o regime CLT. A questão também é citada como uma das motivações para a escassez de mão de obra, principalmente para os que ingressam no mercado profissional. Lucia Garcia afirma que a situação é originada pelas reformas que flexibilizaram o vínculo celetista desde a década de 1990. “A CLT virou um guarda-chuva furado, porque não garante a aposentadoria dessa juventude, estende a jornada de trabalho, reduz remuneração e expõe o trabalhador a riscos físicos e psicossociais.”

Mudança de mentalidade atinge principalmente a população mais jovem. Os segmentos que mais sofrem com a escassez de mão de obra representam o início da carreira de muitos trabalhadores no Brasil. “Esse público hoje não se sente atraído pelo mercado de trabalho formal. Eles buscam mais flexibilidade de horário e o caminho do empreendedorismo”, reconhece Souza.

“Os empresários estão perdendo margem e capacidade de manobra sobre a produção. Por isso, não conseguem remunerar bem e nem investir em adequação, treinamento e motivação para fixar os profissionais”, Lucia Garcia, economista do Dieese.

Perspectivas para o futuro

Nível elevado dos juros aumenta expectativa de retomada da mão de obra. Com os juros básicos em 15% ao ano, o maior patamar em quase 20 anos, os especialistas avaliam que o aperto monetário vai prejudicar o mercado de trabalho. “A tendência dos próximos meses é observarmos a criação de vagas um pouco mais lenta, porque a economia deve esfriar também”, prevê Tobler.

Varejistas tentam parceria com o governo federal para resolver a situação. O Ministério do Desenvolvimento Social aposta no programa Acredita no Primeiro Passo para auxiliar as empresas que sofrem com a falta de mão de obra. Em setembro, o órgão firmou uma parceria com o IDV (Instituto para Desenvolvimento de Varejo) e o Grupo Magazine Luiza para disponibilizar os dados de inscritos no CadÚnico (Cadastro Único) e oferecer qualificação profissional aos profissionais de baixa renda.

Bares e restaurantes demonstram otimismo com a aproximação das festas. Com a expectativa de crescimento de 32% do fluxo de clientes, a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) afirma que 88% dos donos de estabelecimentos têm dificuldade para contratar. Para driblar a situação, eles apostam na qualificação dos trabalhadores, na flexibilização de horários e em aumentos salariais. “É melhor ter essa dificuldade do que ver faltarem clientes”, afirma o presidente da entidade, Paulo Solmucci.

“Juntando o mercado de refeições, eu acho que conseguimos estabelecer um piso salarial maior para competir com a indústria e outros segmentos mais atrativos”, Caroline Nogueira, diretora da Premium Essential Kitchen.

Fonte: UOL