Homem não chora? Reprimir emoções pode aumentar o risco de AVC e suicídio

Desde pequenos, muitos meninos aprendem que sentir é um erro. Frases como “engole o choro”, “homem não fraqueja” ou “você é homem ou não é?” moldam uma masculinidade rígida, em que vulnerabilidade é sinônimo de fraqueza. O resultado, décadas depois, é um adulto que não sabe lidar com o que sente — e paga caro por isso.
“A dificuldade masculina em expressar emoções é multifatorial”, explica a psicóloga e psicanalista clínica Márcia Reis, professora da Universidade Anhembi Morumbi. “Desde pequenos, muitos meninos são ensinados a reprimir sentimentos como medo, insegurança e tristeza. Essa educação emocional limitada é reforçada por padrões culturais que associam masculinidade à força, racionalidade e ausência de vulnerabilidade.”
Ao contrário das meninas, incentivadas a falar sobre sentimentos, os meninos aprendem a se calar.
“A nossa cultura machista faz com que meninos internalizem que demonstrar emoção não é apropriado para eles. Com isso, gera-se um silêncio masculino em torno das emoções e um repertório emocional empobrecido”, diz o psicólogo Marcos Nascimento, doutor em saúde coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, pesquisador da Fiocruz e participante do grupo de trabalho internacional sobre homens e saúde sexual e reprodutiva, a convite da OMS.
Mas o que acontece quando um homem é ensinado a não chorar?
O corpo sente o que a boca cala
Quando o homem não encontra espaço para expressar o que sente, o corpo e a mente buscam outras formas de dar vazão ao sofrimento. Em alguns casos, esse acúmulo se manifesta por meio de sintomas como irritabilidade, ansiedade, insônia, isolamento e até atos de violência.
“É como se as emoções, ao serem silenciadas, procurassem caminhos alternativos para se expressar — e nem sempre de forma saudável”, pontua Reis.
Na dimensão física, os efeitos são igualmente devastadores. “Emoções reprimidas como raiva e tristeza impactam diretamente o coração”, explica a cardiologista Marianna Andrade, coordenadora da cardiologia do Hospital Mater Dei Salvador. “O corpo entra em um estado prolongado de ‘luta ou fuga’, o que eleva a pressão arterial, acelera os batimentos e aumenta a inflamação sistêmica.”
Esse estado de alerta crônico desgasta o sistema imunológico, acelera a aterosclerose (placas de gordura nas artérias), eleva o risco de hipertensão, diabetes, infarto e AVC. Para se ter noção do impacto, um estudo baseado nos dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/DATASUS) mostra que, de janeiro de 2015 a junho de 2024, 63,57% das internações por infarto agudo do miocárdio foram de homens, contra 36,43% de mulheres — possivelmente um reflexo de como emoções não ditas pesam sobre o coração.
Soma-se a isso os comportamentos autodestrutivos. Muito homens, na tentativa de manter o controle emocional, acabam ainda optando por uso excessivo de substâncias desinibidoras, como álcool e drogas. Segundo dados da OMS, 75% das 3,2 milhões de mortes anuais associadas ao uso dessas substâncias ocorrem entre homens.
“Não ter uma pessoa próxima (amigo ou parente) para desabafar, é bastante comum no relato dos homens. Com esse isolamento, pode vir o uso do álcool e outras drogas como uma forma de amenizar a angústia, a ansiedade e o sofrimento, criando outros problemas”, alerta Nascimento.
O entorno também sente (e pode ajudar)
A repressão emocional não atinge só o indivíduo, mas também suas relações. Segundo Márcia Reis, homens ensinados a conter sentimentos têm dificuldade em se abrir, ouvir, demonstrar afeto e lidar com frustrações. O resultado são vínculos marcados pela distância emocional, conflitos mal resolvidos e uma sensação de desconexão afetiva.
Ser emocionalmente inacessível pode minar casamentos, amizades e laços familiares. Aproximar-se, oferecer escuta e validar sentimentos pode ser o primeiro passo para quebrar esse ciclo.
“Muitas vezes, mesmo que você não saiba o que dizer, o que fazer, você pode funcionar como uma espécie de ponte que vai fazer essas pessoas procurarem o auxílio de um profissional”, orienta Jairo Bouer, psiquiatra e colunista de VivaBem.
A ponta trágica do iceberg
No extremo dessa repressão está o suicídio — o desfecho mais devastador do silêncio masculino. Segundo Bouer, a depressão, presente em 95% dos casos, costuma se agravar mais em homens do que em mulheres por um motivo: a demora em pedir ajuda.
Segundo estudo publicado este ano na revista científica The Lancet com dados de 2021, os homens representam cerca de 70% das mortes por suicídio no mundo, mesmo que as mulheres tentem mais vezes. No Brasil, 12,3 em cada 100 mil homens tiram a própria vida, contra 3,24 entre as mulheres, segundo dados do Atlas da Violência de 2022, o último disponível.
“A gente vê o homem às vezes num embate muito grande entre aquilo que ele está sentindo e o papel que é esperado dele, e sem dúvida nenhuma, esse pode ser um gatilho importante para o sofrimento psíquico. Ou se ele já está em sofrimento psíquico, para um agravamento da sua condição”, Jairo Bouer, psiquiatra.
Como quebrar o ciclo
A mudança começa na infância — e em casa. “É importante que os meninos tenham espaços seguros para poderem expressar suas emoções, seus medos e temores, compreendendo que a expressão de emoções não os fará ‘menos homens’ no futuro”, acredita Nascimento.
Para Bouer, a escola também tem papel importante nisso, onde professores poderiam promover discussões, atividades e desenvolvimento de habilidades socioemocionais.
Já na vida adulta, o caminho passa pela terapia e pelo autoconhecimento. Falar o que sente com alguém de confiança e escrever sobre as próprias emoções são pequenos gestos que podem ajudar a entender os próprios sentimentos e levar a busca por apoio profissional.
“A psicoterapia oferece um espaço seguro para que o homem possa se escutar, se reconhecer e se expressar sem julgamentos”, explica Reis.
Esse cuidado também é importante para o coração. “O acompanhamento psicológico deveria ser parte da prevenção e tratamento de doenças cardíacas. O estresse emocional é um agressor silencioso para o coração”, reforça a cardiologista Marianna Andrade.
Procure ajuda
Caso você esteja pensando em cometer suicídio, procure ajuda especializada como o CVV (Centro de Valorização da Vida) e os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) da sua cidade. O CVV funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188, e também atende por e-mail, chat e pessoalmente.
