Sindicato relata denúncias de assédio em fábrica da BYD na Bahia
O Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari afirma que recebeu denúncias de casos de assédio sexual e assédio moral contra trabalhadores da fábrica da BYD na Bahia. Segundo a entidade, as queixas envolvem funcionários brasileiros e chineses e indicam que os problemas não estariam restritos a episódios isolados.
Procurada, a BYD diz que está comprometida em investigar e punir denúncias de assédio no ambiente de trabalho.
“A BYD Auto do Brasil reforça que está comprometida em investigar e punir, quando for o caso, toda e qualquer denúncia de assédio no ambiente de trabalho. A empresa mantém um canal de denúncias por e-mail, que permite o recebimento de queixas de forma anônima, e todas as apurações correm sob sigilo, para proteger a identidade de quem denuncia”, informou a montadora, por meio de comunicado.
As denúncias ganharam repercussão após uma assembleia realizada em frente à fábrica na quinta-feira passada (9). Em um vídeo gravado durante a mobilização, o presidente do sindicato, Júlio Bonfim, criticou a presença de policiais nas proximidades das instalações da montadora chinesa e afirmou que a categoria enfrenta os supostos casos de assédio moral e sexual.
A assembleia havia sido convocada para discutir as relações de trabalho na fábrica e a campanha salarial. Os trabalhadores reivindicam reajuste de 15%, vale-alimentação de R$ 850, ações efetivas contra o assédio moral e a retirada de advertências aplicadas a dirigentes sindicais.
De acordo com o sindicato, três viaturas da Polícia Militar e agentes armados permaneceram em frente à unidade durante a mobilização. A entidade classificou a presença policial como uma tentativa de intimidação.
“Os relatos de assédio moral já chegam a centenas. Os de assédio sexual, a dezenas”, disse o dirigente em entrevista a esta coluna.
O dirigente não chegou a apresentar provas da quantidade de denúncias.
MPT abre investigação
As denúncias surgem um ano e meio depois de a construção do complexo da BYD em Camaçari ter sido alvo de uma operação de combate ao trabalho análogo à escravidão.
Quanto aos supostos casos de assédio agora relatados, o MPT-BA (Ministério Público do Trabalho da Bahia) informa que mantém um procedimento preliminar aberto a partir de uma denúncia que pode se configurar como assédio moral. O caso ainda está em fase de apuração. O Ministério Público do Trabalho na Bahia informou que, até terça-feira, 14 de julho, não havia recebido uma denúncia formal do sindicato sobre os supostos casos de assédio sexual.
‘Acham que eu estou inventando’, diz funcionária
Segundo Júlio Bonfim, as denúncias de assédio sexual são apresentadas principalmente por trabalhadoras. Já as queixas de assédio moral envolvem funcionários homens e mulheres, que relatam a ocorrência de xingamentos, humilhações, ameaças e tratamento considerado abusivo por parte de integrantes da liderança.
O dirigente afirma que os relatos foram levados à empresa, mas avalia que as respostas são insuficientes. Para Bonfim, a estrutura da montadora, dividida em áreas com diferentes chefias e níveis de autonomia, dificulta a adoção de uma política uniforme para enfrentar os casos.
O presidente do sindicato diz que os casos de assédio sexual relatados à entidade envolvem principalmente superiores que teriam feito contatos físicos sem consentimento, comentários sobre o corpo das funcionárias e abordagens de caráter sexual. O sindicalista afirma que algumas ocorrências teriam resultado em mudanças de setor ou afastamento entre os envolvidos, mas considera que faltam punições capazes de impedir a repetição dos episódios.
Esta coluna conversou com uma funcionária da BYD, sob condição de anonimato, que afirma ter sido vítima de assédio sexual e moral dentro da fábrica.
Segundo ela, as abordagens começaram pouco depois de sua contratação, quando ela era a única mulher de sua equipe. Ela afirma que dois superiores passaram a fazer comentários sobre seu corpo, perguntas sobre sua vida íntima e convites insistentes.
Em uma ocasião, afirma, um dos seus superiores tocou suas pernas sem consentimento enquanto os dois estavam sozinhos durante um treinamento. A trabalhadora afirma que as humilhações e perseguições no ambiente profissional se intensificaram depois que ela rejeitou as abordagens.
“Quando comecei a rejeitá-los, tiveram início os assédios morais”, diz.
Ela relata, ainda, que passou a ser repreendida na frente dos colegas, impedida de apresentar sua versão sobre problemas no trabalho e transferida de função após um desentendimento com a respectiva liderança. Segundo a funcionária, a situação afetou sua saúde emocional e ela passou a precisar de acompanhamento psicológico e psiquiátrico.
A trabalhadora afirma ter procurado o setor de Recursos Humanos da BYD e relatado os episódios. De acordo com ela, a empresa informou que realizou uma apuração, mas disse não ter encontrado provas suficientes para aplicar uma punição.
“A empresa acha que eu estou inventando, mas eu não estou. Fica parecendo que a pessoa que denuncia é quem está errada. Chegaram a me dizer que eu precisava me dar bem com todo mundo”, afirmou.
Ela também diz ter tomado conhecimento de situações semelhantes envolvendo outras mulheres. Em um dos casos, um funcionário acusado de tocar outra trabalhadora sem consentimento teria sido apenas transferido, permanecendo na empresa.
“Sem punição, eles não têm medo de fazer novamente”, disse.
Denúncia de trabalho análogo à escravidão
Em dezembro de 2024, uma força-tarefa do MPT-BA resgatou inicialmente 163 operários chineses contratados por uma empreiteira responsável pelas obras da fábrica de Camaçari.
O caso se referia às obras da fábrica, e não aos trabalhadores da linha de produção atualmente representados pelo sindicato.
Em 2025, o MPT-BA processou a BYD e duas empreiteiras; posteriormente, foi firmado um acordo de R$ 40 milhões com a montadora como garantia dos pagamentos assumidos pelas terceirizadas.
Fonte: Paula Gama colunista do UOL
