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A quem interessa a criminalização do MST?

Atividade de apresentação do diagnóstico e soluções de saneamento no Assentamento Irmã Dorothy – Imagem: Yulli Nakamura

Por Leonardo Adler*

Durante os anos de pandemia, o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra, o MST, doou mais de 7 mil toneladas de comida. Mais importante movimento social do Brasil, o MST tem 40 anos de história e de luta, já assentou 450 mil famílias e, com todas as dificuldades que os assentamentos e cooperativas possuem, é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina.

É importante reforçar que o MST não promove invasões de terras. O movimento atua ocupando áreas de grandes propriedades que não estão sendo utilizadas para a produção, com o intuito de pressionar pela sua destinação para a reforma agrária e assegurar que elas cumpram sua função social, como está estabelecido na Constituição.

Conforme expresso por Dom Tomás Balduíno, o MST tem uma visão abrangente. Ele busca uma transformação profunda e imediata das estruturas desiguais que estão causando o empobrecimento e a exclusão da maioria da população brasileira. O seu programa agrário, por exemplo, engloba um conjunto de ideias que representam como o movimento entende a agricultura, e resume a estratégia de oposição ao modo de fazer do agronegócio: a água é vista como um bem comum que deve beneficiar a todos, a produção de alimentos precisa ser sem agrotóxicos, as sementes precisam ser preservadas e multiplicadas e os agricultores precisam de acesso a tecnologia, seguro, assistência técnica e crédito. São bandeiras que mostram que precisam ser promovidas mudanças radicais no acesso à terra no Brasil que só serão alcançadas com a realização da reforma agrária.

Um dos objetivos centrais do MST é oferecer educação técnica, científica e política de forma contínua. São mais de 2 mil escolas públicas construídas em assentamentos, visando contribuir constantemente para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e solidária. O foco está em exercer um controle social sobre a terra, a água e as florestas.

Com assistência técnica e extensão rural historicamente reduzida no Brasil, sem acesso a crédito e muitas vezes sem estar cadastrado como beneficiário da reforma agrária, diversos assentamentos rurais encontram-se em situações precárias de estrutura, sem acesso à saúde, saneamento básico e energia, o que acarreta em dificuldades de produção nos territórios.E foi devido a estes problemas estruturais que começou a minha relação com o movimento.

Cursando mestrado em Tecnologia Social pelo NIDES (UFRJ), entrei para o projeto de extensão Tecnologia Social em Assentamentos da Reforma Agrária (TecSARA), e o encantamento com o trabalho desenvolvido no Acampamento Edson Nogueira foi tão grande que coloquei minha dissertação à disposição do MST-RJ, para desenvolver ações de saneamento e infraestrutura em algum assentamento que precisasse deste apoio.

Foi um ano de trabalho junto às famílias do Assentamento Irmã Dorothy para olhar para as questões estruturais do assentamento. Há na dissertação um tópico dedicado ao diagnóstico, que se tornou um verdadeiro inventário de tecnologias desenvolvidas localmente com tudo que esse povo é capaz de produzir sem apoio, sem recurso e sem assistência, só com inteligência e materiais reaproveitados.

Vi bomba d’água manual com canos e conexões de PVC, vi moto-bomba e gerador reaproveitando peças antigas de automóveis e vi muito amor pela produção de comida saudável.

Dezessete anos antes da experiência do mestrado, meu primeiro contato com o MST foi em uma visita a um acampamento durante o colégio, uma experiência transformadora, formadora de caráter e de empatia. Gostaria que todos os colégios, públicos e particulares, pudessem ter uma visita como a que eu pude fazer em 2001. Não só os colégios como as universidades. Os acampamentos e assentamentos são locais riquíssimos para estudo de diversas disciplinas e competências. Se assim fosse, talvez não estaríamos diante de um show de horrores como a CPI do MST que ocorreu nos últimos meses, com o claro objetivo de criminalizar o movimento.

A quem interessa essa criminalização? A CPI foi dominada por políticos de oposição que acreditam que provar que existe alguma ligação do MST com o governo mancharia a imagem do governo. E para isso montaram uma CPI com muitos integrantes ligados ao agronegócio, alguns financiados por fazendeiros sobre quem pesam denúncias de trabalho análogo à escravidão, e a mídia deu muito mais espaço para os acusadores. Acusadores de que, exatamente? Não há nada a se falar e o resultado dessa CPI foi gasto de tempo e de dinheiro público.

Vale dizer novamente, o método de atuação do MST é a ocupação de latifúndios improdutivos para transformá-los em locais de produção de alimentos saudáveis. É o pequeno produtor que coloca comida na nossa mesa e o que o MST faz é organizar a luta desses pequenos produtores por uma Reforma Agrária Popular.


* Leonardo Adler é engenheiro ambiental, mestre em tecnologia social e tem 14 anos de dedicação ao saneamento, sendo 10 deles com foco em levar os projetos para as comunidades que mais precisam do acesso a este serviço. É sócio fundador da Taboa Engenharia, empresa vencedora do 2º Prêmio ECOA na categoria Negócios que Impactam, e hoje se dedica de corpo e alma à melhoria do saneamento na Terra Indígena Yanomami, como Engenheiro Ambiental do DSEI Yanomami/SESAI.

Fonte: Ecoa/UOL

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