Bancos ampliam em 142% oferta do consignado no Crédito do Trabalhador

Os maiores bancos brasileiros ampliaram a oferta do consignado privado, mais que dobrando o volume de crédito no programa de Crédito do Trabalhador.
Em março, a carteira total do consignado para funcionários do setor privado superou a marca de R$ 100 bilhões. O crescimento é de 142% na comparação com igual mês do ano passado, de acordo com dados mais atualizados do Banco Central.
Volume ainda representa pouco mais de 25% do saldo de R$ 384 bilhões do consignado para servidores públicos. Segundo o setor, isso mostra que indica maior espaço para expansão à frente, já que o Brasil tem cerca de três vezes mais trabalhadores CLT que empregados do setor público.
Mercado ainda aguarda a resolução de pendências operacionais no sistema do DataPrev que processa os empréstimos. Ainda assim, os bancos já aceleraram a concessão na modalidade, considerada mais segura e, portanto, uma forma de blindar os balanços da pressão de endividamento e inadimplência no País.
Consignado é visto como um instrumento mais seguro para canalizar crédito pessoal. As parcelas são descontadas diretamente na folha de pagamento. O produto também prevê a possibilidade de uso de parte do saldo do FGTS para amortizar a dívida, em caso de demissão sem justa causa. Os mecanismos reduzem o risco de inadimplência e limitam os juros cobrados nas operações.
A Selic alta mudou a postura dos bancos, que estão diminuindo a exposição ao crédito pessoal sem garantia, como cartão de crédito, e dando importância para linhas em que o consumidor pode dar um ativo como garantia ou então para o consignado.Maria Estela Ferraz de Campos, chefe de crédito da Integral Group
Entre os grandes bancos, a briga será principalmente pela conquista das empresas com quadros maiores de empregados. Essa é a avaliação do vice-presidente de Finanças e Controladoria da Caixa Econômica Federal, Marcos Brasiliano Rosa. “É por isso que estamos observando bancos com uma carteira PJ maior estão alavancando mais o segmento”, disse, em entrevista ao Broadcast.
Caixa, que participou da elaboração do programa, ainda está nos estágios iniciais de implementação do produto. A carteira do consignado CLT atingiu cerca de R$ 9 bilhões, de acordo com Brasiliano. O número ainda representa uma fração do saldo de R$ 114,2 bilhões do consignado como um todo, mas o maior banco do País planeja escalar a concessão nos próximos meses.
Entre os privados, o Itaú é destaque, com uma carteira que subiu de cerca de R$ 12 bilhões antes do programa do governo para R$ 19,5 bilhões no primeiro trimestre. O banco é líder no segmento, com uma participação de mercado de pouco mais de 20%. “Estamos crescendo com muita qualidade, nos clientes certos, naturalmente com uma visão de rentabilidade adequada”, disse o presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, na teleconferência com analistas para discutir os resultados.Continua após a publicidade
No Bradesco, o privado ainda representa 6% do portfólio consignado, mas a proporção vem aumentando gradualmente. O saldo na linha cresceu quase 43% no comparativo anual, para cerca de R$ 6,7 bilhões, que corresponde a uma fatia de 6,6% do mercado geral.
Dataprev
Para continuar acelerando a exposição à modalidade, o setor bancário ainda cobra a evolução do sistema do DataPrev. Isso vale principalmente por causa da portabilidade entre bancos e a migração automática do contrato quando o trabalhador muda de emprego. Atualmente, quando há uma troca de empresa, o modelo exige a formalização de um novo contrato.
Governo trabalha para automatizar o processo, mas esse é um procedimento complexo, porque envolve ajustes nos sistemas das instituições. Segundo Brasiliano, da Caixa, as melhorias começaram a ser implementadas em maio e devem estar totalmente operacionais em setembro. “Algumas coisas mais relevantes acontecem agora em maio, podendo já começar a produzir efeitos no mês seguinte”, explicou o executivo.
Bancos privados vinham divergindo dos públicos em relação ao modelo de acesso a garantias vinculadas ao FGTS. Esse é o ponto central para consolidação do consignado privado. O governo defendia a centralização o mecanismo pela Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) digital, enquanto a indústria bancária queria disponibilizá-lo nos canais próprios.
Ministério do Trabalho deve liberar os bancos a ofertarem as garantias em seus aplicativos, mas em operações sujeitas a restrições. Segundo Brasiliano, se o empréstimo for concedido via CTPS, as condições serão livres.
Reportagem procurou a pasta para esclarecer o desenho do processo. Entretanto, não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
Taxas
No mês passado, o governo publicou uma portaria que busca coibir o que as autoridades consideram “taxas abusivas”. A resolução prevê punições para instituições financeiras que cobrem juros que excedem uma taxa de referência calculada pelo Ministério do Trabalho. Também determina que o custo efetivo total (CET) das operações contratadas por plataformas digitais fica limitado a um ponto porcentual acima da taxa de juros mensal da operação. Em março, o juro médio do consignado CLT estava em 56,8% ao ano, ou cerca de 3,8% ao mês, conforme números do BC.
Para analistas da Fitch, as incertezas regulatórias e operacionais têm implicado em múltiplas dificuldades para escalar o consignado privado, apesar do potencial do produto para o modelo de negócios dos bancos. “Caso persistam, estes desafios continuarão pressionando os custos dos juros, aumentando o conservadorismo dos originadores e reduzindo a eficiência do mercado”, alerta a agência.
