Faz mal para a saúde física ou mental não tirar férias do trabalho?

O período de férias costuma ser o mais esperado do ano. Seja para viajar, seja para ficar em casa, não há nada como descansar da correria do trabalho. O problema é que tem gente que simplesmente opta por não tirar esses dias de folga, por medo de ser demitido ou de perder o controle sobre suas tarefas. Se você for uma dessas pessoas, atenção: não faça isso.

O ritmo do trabalho, mais intenso, pode gerar uma adrenalina boa no dia a dia, mas necessariamente, em algum momento, precisa ser interrompido para um recarregamento da bateria do corpo e da mente.

“Nosso motor, nosso cérebro, corpo, mente, nossa capacidade de interagir com as pessoas, tudo tem um limite”, diz o psiquiatra Guido May, do Hospital Albert Einstein. Segundo ele, é preciso entender esse limite, exercitar-se no momento certo, na intensidade adequada e descansar na medida certa. “Essa sim é a receita de sucesso, ou seja, trabalhar bem, viver bem, ou o melhor possível que conseguirmos neste momento. Conhecer a adrenalina da alta performance e ao mesmo tempo não entrar em burnout”, explica o especialista.

May afirma que, assim como as férias devem ser tiradas após um ano de trabalho, tudo tem um tempo limite: um jogo de futebol tem dois tempos de 45 minutos, por exemplo, e um intervalo de 15 minutos, uma corrida saudável, uma bateria de surf ou uma sessão de treinamento possuem um tempo de duração. “Tudo isso pelo simples motivo: não se pode desejar funcionar em alta performance o tempo todo sem pagar um preço”, diz.

De dores físicas ao burnout

Quando está sobrecarregado, o corpo demonstra sinais, como:

  • Dores musculares;
  • Dificuldade de concentração;
  • Mau humor e irritabilidade;
  • Insônia;
  • Palpitações;
  • Cansaço excessivo

Nem todas as pessoas apresentam vários desses sinais, mas a ocorrência de qualquer um desses já prejudica muito a capacidade produtiva de qualquer pessoa.

Além disso, a sobrecarga no trabalho pode levar ao tão falado burnout. Quem sofre o problema pode apresentar fraqueza, dores musculares, de coluna e de cabeça, tremores, náuseas, palpitações, tonturas, alterações no sono e de humor, falta de apetite, irritação e ansiedade.

Se não cuidado, o transtorno pode causar úlceras, cardiopatias, diabetes, doenças autoimunes, crises de pânico e depressão; ou levar ao alcoolismo, uso de drogas e até mesmo suicídio. Portanto, ao primeiro sinal de que algo está errado, procure ajuda psicológica ou psiquiátrica.

Por que alguns não gostam de tirar férias?

Comportamentos obsessivos podem estar por trás de quem não se permite um descanso. A pessoa tem necessidade de controlar tudo o tempo todo e fica em estado constante de preocupação. Além disso, medo de perder o emprego e insegurança também podem explicar a atitude.

Baixa autoestima, autoexigência elevada, perfeccionismo e inflexibilidade desencadeiam ideias depreciativas e de desvalor sobre suas competências, habilidades e sobre o valor do trabalho que se realiza. O grande perigo é que essa dedicação exagerada e desproporcional pode fazer o indivíduo adoecer.

Um estudo publicado no periódico Journal of Personality and Social Psychology em 2015 identificou que pessoas muito rígidas consigo mesmas têm necessidade de controlar tudo, são muito perfeccionistas, têm um nível de autoexigência autodestrutiva ou se obcecam facilmente. Isso pode gerar possíveis patologias associadas à ansiedade, ao estresse e inclusive transtorno de personalidade obsessivo-compulsivo, caracterizado por perfeccionismo, rigidez e preocupação excessivos, que interferem na vida cotidiana.

As vantagens das férias

Além de recarregar as baterias do corpo e da mente, melhorando o humor, aumentando a produtividade e até prevenindo doenças, as férias ainda prolongam a vida, de acordo com um estudo. Publicada no periódico Journal of Nutrition, Health and Aging em 2018, a pesquisa mostrou que pessoas que tiram férias mais curtas, de três semanas ou menos por ano, têm 37% mais risco de morrer.

“Os danos causados pelo regime de estilo de vida intensivo concentraram-se em um subgrupo de homens com férias anuais mais curtas. Não pense que ter um estilo de vida saudável pode compensar o trabalho pesado e não tirar férias”, disse Timo Strandberg, um dos autores do estudo. “As férias podem ser uma boa maneira de aliviar o estresse.”

Vale lembrar também que além do gerenciamento do ano de trabalho, é importante conversar com gestor sobre ter uma rotina que permita diariamente, semanalmente ou mensalmente ter períodos para o autocuidado e o investimento no descanso —por isso temos jornadas diárias de trabalho, o final de semana e as férias.

Se você se sente inseguro em relaxar, alguns pontos podem ajudar:

  • Se possível na sua empresa, divida suas férias em duas (15 dias em um período e 15 em outro, ou 10 dias em um período do ano e 20 em outro);
  • Informe aos colegas ou clientes que você entrará de férias, assim evita que façam contato com assuntos que não sejam urgentes durante o período de descanso;
  • Organize o trabalho para não deixar assuntos pendentes;
  • Evite checar e-mails e olhar aplicativos de mensagens durante o período de recesso. Colegas e chefe conseguem sobreviver sem você. É importante pensar que enquanto você descansa, você vai se tonar mais produtivo na volta.

Decidiu descansar? Relaxe!

É preciso pensar em como não se estressar durante esse período. Quem viaja, por exemplo, precisa entender que não dá para conhecer tudo em poucos dias ou semanas. Quanto mais qualidade tiver nas férias, melhor, não importa se for ficar em um lugar ou dois ou até mesmo se ficar em casa, é maravilhoso aproveitar a rotina e descansar um pouco mais e se desconectar dos compromissos. Aliás, nesse período, evite colocar pendências burocráticas em dia.

Também vale encontrar um ritmo que permita descansar e ter um nível de atividade estimulante positivo que realmente torne aqueles dias diferentes da nossa rotina de trabalho, sendo mais leves, menos corridos, com menores responsabilidades e compromissos. Que tal tentar ficar longe das telas e praticar atividades físicas ou ler mais?

Fontes: Guido May, psiquiatra do corpo clínico do Hospital Albert Einstein e CEO da GnTech; Myrian Azoubel Sales, psicóloga do HUOC (Hospital Universitário Oswaldo Cruz) em Recife; Ellen Aragão, coordenadora do núcleo de psicologia do Hospital Adventista Silvestre no Rio de Janeiro.

Fonte: VivaBem/UOL

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