Trabalhador essencial e ‘invisível’ é maior vítima da pandemia no Brasil

Mortes de motoristas de caminhão e ônibus subiram mais de 400% no segundo bimestre, de acordo com dados do Caged

“Claudio, vá em paz”, diz o cartaz no cortejo de caminhões organizado para se despedir do motorista José Claudio dos Santos, 39, morto há pouco mais de um mês. Ele, que trabalhou por quase uma década para uma transportadora de Santa Catarina, foi uma das centenas de milhares de vítimas da Covid-19 no Brasil.

Enquanto o país ultrapassa a triste marca dos 500 mil mortos pelo novo coronavírus, fica cada vez mais claro que os efeitos da pandemia são desiguais, e os trabalhadores mais “invisíveis” —aqueles de baixa remuneração ou que não puderam aderir ao trabalho remoto e nem manter níveis seguros de distanciamento social— foram os que mais sofreram nos últimos meses.

Dados de trabalhos formais do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério da Economia, apontam que caminhoneiros, porteiros de edifícios, vendedores do comércio e motoristas de ônibus estão entre as ocupações com mais desligamentos por morte no segundo bimestre do ano, quando o país atravessava a segunda onda da pandemia.

Os meses de março e abril foram os com maior número de mortes na pandemia até agora, com mais de 66 mil e 82 mil óbitos, respectivamente. Os registros de contratos formais encerrados por óbito no Caged saltaram 159%, de 8.821, no segundo bimestre de 2019, para 22.837 neste ano.

Entre os motoristas de caminhão, foram registradas 1.449 mortes em março e abril, o maior patamar entre as ocupações e um aumento de mais de 223% em relação ao mesmo bimestre de 2020 (ainda no início da pandemia no Brasil).

Na comparação com o mesmo período de 2019, antes da crise sanitária, a alta é ainda mais expressiva: 407%.

“Por circularem intensamente, os motoristas de caminhão, além de serem as maiores vítimas de óbitos, podem ser também vetores do vírus e suas variantes entre os estados e regiões do país”, diz Elvis Cesar Bonassa, diretor da Kairós Desenvolvimento Social.

A demora na chegada de novas doses de imunizantes e a falta de previsibilidade na rotina também prejudicam a imunização de muitos desses profissionais.

Além das mortes de motoristas de ônibus, assusta também o aumento nas mortes de vigilantes —alta de 234% na comparação com antes da pandemia—, vendedores do comércio (crescimento de 187%), porteiros (147%) e faxineiros (97%), ainda segundo os dados Caged, que foram compilados pela Kairós.

Pesa contra esses trabalhadores a necessidade de deslocamento entre a residência e o trabalho por meio de transporte público, o que aumenta o risco de contágio.

Há 22 anos trabalhando em edifícios, Jailson Tavares, 49, ainda carrega as sequelas da Covid-19. Entre março e abril, ele ficou internado por 12 dias, logo após seu irmão ficar doente. Na mesma semana, o pai deles foi vacinado.

“Foi uma sorte, pois ele tem a saúde frágil e estou seguro que a vacina o salvou”, disse.

Agora vacinado, por ser diabético, Tavares conta que ainda falta fôlego para subir lances de escada ou caminhar até a padaria. “Conheço uns vinte colegas que tiveram Covid-19 e ainda carregam problemas físicos ou psicológicos. Eu era um antes do coronavírus; agora, sou outro.”

Por mais que tenham conseguido restringir a circulação nas áreas comuns do condomínio, ele lembra que o contato com moradores é inevitável e as correspondências não param de chegar.

“Os zeladores e os porteiros não pararam de trabalhar e não puderam fazer home office. As pessoas não fazem ideia do quanto somos importantes para a vida de um condomínio. A gente se sente invisível.”

Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revelou que no fim do ano passado, do total de pessoas em trabalho remoto, 76,1% tinham nível superior completo, 31% tinham entre 30 e 39 anos e a maioria era branca (65,4%).

Sob pressão das entidades do setor de transporte, neste ano, o Ministério da Saúde incluiu trabalhadores do transporte, como os de caminhão, ônibus, metroviários, ferroviários, de transporte aéreo e aquaviário entre as profissões prioritárias no Plano Nacional de Vacinação.

Dados do Ministério da Saúde mostram que, até o fim de maio, mais de 95 mil doses do imunizante foram aplicadas em trabalhadores do transporte. De acordo com a CNT (Confederação Nacional do Transporte), os estados que mais vacinaram esses profissionais até agora foram São Paulo, Bahia e Maranhão.

Os caminhoneiros também compõem um grupo considerado eleitoralmente importante para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que deve buscar a reeleição no ano que vem.

Entre os prioritários, ainda estão trabalhadores portuários, de indústrias e da limpeza urbana.

Ao mesmo tempo, apesar de gravemente expostos ao risco, sete entre as dez ocupações com mais mortes registradas pelo Caged não foram incluídas como prioritárias para receber a vacina, segundo edição do Plano Nacional publicada no fim de maio.

No caso dos porteiros, zeladores e demais trabalhadores em condomínios, os sindicatos pediram a inclusão desses profissionais como prioritários em nível nacional. Com a falta de diálogo, as entidades de trabalhadores decidiram também solicitar a inclusão a governos estaduais e municipais.

A CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) e a CNTC (Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio) também pediram ao Ministério da Saúde para que os trabalhadores do comércio fossem incluídos no grupo prioritário de vacinação. Segundo o Sindicato dos Comerciários de São Paulo, não houve resposta por parte do governo.

A análise dos dados mostra que as dez ocupações mais expostas a risco de morte no segundo bimestre de 2021 concentram 30% de todos os desligamentos por morte de trabalhadores.

Além deles, há um exército de informais —trabalhando como entregadores, diaristas ou ambulantes — que, apesar de igualmente expostos ao vírus, não entram nas estatísticas de trabalho com carteira assinada.

Em 2020, após uma mudança de metodologia no Caged, passou a haver uma maior notificação de empregados temporários. Isso elevou a quantidade de trabalhadores registrados pela pesquisa, o que prejudica a comparação da série histórica do número total de empregos.

Segundo Bonassa, no caso dos óbitos, no entanto, a participação das modalidades de trabalho temporário é inferior a 1%. Para os caminhoneiros, por exemplo, eles representam 0,5%, por isso a comparação com as duas metodologias tem baixo impacto no comportamento da série histórica.

Apesar de o Caged apontar o número de contratos encerrados por morte do trabalhador, o cadastro não diz a causa da morte. Ou seja, não é possível atribuir todo o aumento no número de mortes à Covid.

Bonassa ressalta, no entanto, que o principal fator que pode explicar esse aumento é a pandemia.

“Não há outra mudança no cenário que possa ter causado esse impacto, e mesmo que algumas ocupações tenham subido mais que outras, o aumento de óbitos foi generalizado”, afirma.

Segundo outro levantamento, do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), mesmo para os profissionais da linha de frente que foram mais priorizados na vacinação, como os da área de saúde, houve uma alta de 75,9% nas mortes entre o primeiro trimestre do ano passado e o mesmo período deste ano.

“A pandemia levou a uma perda de capital humano e a uma queda na renda para essas famílias”, diz a economista da entidade Rosângela Vieira. “Por mais que essas famílias sejam amparadas por uma pensão por morte, é uma renda muito menor e isso vai ter impacto no futuro.”

Segundo o Ministério da Saúde, todos os grupos prioritários para a vacinação estão no Plano Nacional de Vacinação, que está em atualização constante. A pasta afirma, ainda, que a seleção foi definida por especialistas e compactuada com várias entidades, como o Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) e o Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde).

Fonte: Folha de São Paulo

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