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Só arroz e farinha para comer: fome aumenta e doações de cesta básica caem

Carla Santos, 28, vive em Heliópolis, maior comunidade de São Paulo, localizada na zona sul, com o marido e os três filhos, de 11, 9 e 3 anos. Ele está desempregado e vem dela a única renda da casa —Carla trabalha com carteira assinada num CCA (Centro para Crianças e Adolescentes), mas enfrenta dificuldade para dar comida à família desde que parou de receber doações.

Durante o período mais agudo da pandemia de covid-19, doações de cestas básicas e marmitas ajudavam a amenizar a vulnerabilidade social, mas, com o passar do tempo, contribuições de pessoas físicas, empresas e órgãos públicos despencaram cerca de 80%, segundo líderes comunitários ouvidos pelo UOL Notícias.

Eles avaliam que a volta à rotina depois do período mais crítico da transmissão do coronavírus e o fato de o presidente Jair Bolsonaro (PL) ter minimizado a questão da fome durante o período eleitoral contribuíram para reduzir o engajamento de doadores.

Então candidato à reeleição, Bolsonaro afirmou em outubro que o Auxílio Brasil paga, em uma média diária, o valor suficiente para comprar até dois quilos de frango e que, por isso, “não se justifica passar fome no Brasil”.

De acordo com dados do 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, a fome avançou este ano —33 milhões de pessoas não têm o que comer.

Geladeira vazia. Carla relata que não recebia doações há quatro meses. “A cesta faz falta porque para uma pessoa só sustentar a casa é difícil. Os alimentos estão caros e pago R$ 500 de aluguel.”

Ela conta com a ajuda de amigos para colocar comida em casa —na quinta-feira (24), quando conversou com a reportagem, havia recebido duas cestas básicas graças a essa corrente de solidariedade. “Estou com meu armário cheio, só a minha geladeira que tem uma manteiga, mas ainda assim sou grata. A gente tem que ser grato pelo pouco que temos”, disse. Carla Santos

Esses dias estava sem alimento dentro de casa. Os meus filhos tomam café e almoçam no CCA, mas quando chega no período da noite não tem a janta. Esses dias o que tinha mesmo no meu armário era só arroz e farinha. Foi o que a gente deu para eles comerem. É uma coisa triste, que a gente não deseja nem pro pior inimigo.”

Antonia Cleide Alves, presidente da Unas (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região), diz que num período de um ano e meio conseguiu doar 60 mil cestas com a ajuda de pessoas físicas e empresas. Hoje, no entanto, são cerca de 120 uma vez por mês, mas não há uma periodicidade definida em razão da falta de doações. “Quem ajudava muito era a classe média, que também está sofrendo com o peso da inflação”, afirma.

“Fica aquela coisa que parece que dos pobres a gente tem que escolher os mais pobres. É muito triste, ninguém fica feliz de precisar pedir comida” Antonia Cleide.

Fome saiu do debate. Presidente da Cufa (Central Única das Favelas), Preto Zezé diz que as doações caíram 80% em comunidades de todo o país em relação a 2020. Ele atribui essa queda ao fato de as pessoas acreditarem que as doações não são mais necessárias e também critica a maneira como a fome foi citada durante a campanha eleitoral.

Na opinião dele, “o assunto passou batido, como se não fosse um tema grave”. “Nos debates não foi presente. Não acabou, o problema continua grave. As doações diminuíram, mas a demanda só aumenta”, afirma.

O então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que ganhou a eleição, repetiu em discursos que sua prioridade era tirar o país do mapa da fome. Tanto ele quanto Bolsonaro prometeram estender o auxílio financeiro às famílias vulneráveis, mas, durante a campanha, não explicaram como. A equipe do petista incluiu na PEC da Transição a manutenção do pagamento de R$ 600 mensais do Auxílio Brasil —que vai passar a se chamar Bolsa Família.

Em Paraisópolis, comunidade na zona sul de São Paulo, o presidente do G10 Favelas, Gilson Rodrigues, conta que a queda nas doações começou com o arrefecimento da pandemia e se intensificou com as eleições.

“Houve negação muito forte da fome na eleição, o que levou as pessoas a pararem de ajudar. É triste ver uma pessoa que você tem convivência dizer que está passando fome, a gente não sabe nem como conduzir. Se fala de um novo normal e esse novo normal tem representado menos comida na mesa, as pessoas se acostumaram”, comenta.

No auge da pandemia, 10 mil marmitas eram distribuídas diariamente na comunidade. Hoje são entre 200 e 300 por dia. “As pessoas chegam às 9h para formar a fila porque sabem que correm o risco de ficar sem comida se chegarem mais tarde.”

Segundo ele, o tiroteio na comunidade durante uma visita do então candidato Tarcísio de Freitas (Republicanos), em outubro, também afugentou doadores que contribuíam regularmente para a campanha contra a fome.

Com um filho de um ano, Catliny Dandara, 18, moradora de Paraisópolis, diz que não recebe doações há cerca de seis meses. Ela não pode voltar ao trabalho porque não conseguiu vaga na creche para o bebê e não tem com quem deixá-lo. “Às vezes falta fralda, falta um alimento. Fica muito difícil porque só o meu marido trabalha, temos que pagar aluguel.”

Só o básico para comer. Vanessa Lima, 35, vive na Brasilândia, zona norte da capital paulista, com o marido, que é entregador de aplicativo, e os dois filhos, de 7 e 9 anos. Pedagoga, não trabalha mais para cuidar das crianças —muitas vezes eles não têm aula e a mãe não tem com quem deixá-los.

“Na pandemia o pessoal estava se sensibilizando mais. Agora recebemos doações uma vez a cada dois, três meses. O que salva bastante é que na escola eles têm café e almoço. Já é um gasto a menos”, avalia.

“Estamos vivendo basicamente de arroz, feijão e ovo. De vez em quando vem uma coisinha diferente”, Vanessa Lima.

Marcio Costa, 44, também mora na região da Brasilândia, e vive de bicos desde que a empresa de segurança na qual trabalhava fechou —na pandemia. Ele mora com a filha, de 19 anos, que também faz trabalhos esporádicos, e a neta, de 2.

“A falta de doações de cestas complicou porque a gente conseguia pegar até duas por mês, pra gente alivia. Já tendo o básico em casa, ajuda bastante”, conta. “A periferia é esquecida do mundo. O gestor só aparece em televisão, não vem aqui para ver.”

Henrique Deloste, líder comunitário e representante da Associação dos Moradores de Brasilândia Cachoeirinha, destacou que é procurado diariamente por pessoas que vivem na área com pedidos de cestas básicas.

“Teve uma queda muito grande depois que reduziu a pandemia, mas a fome não diminuiu. A gente está atendendo na emergência, tem pessoa que chega e fala que não tem nada para cozinhar”, afirma. Ele diz que a prefeitura deveria intensificar a distribuição dos alimentos.

Se antes o perfil de moradores em situação de rua em busca de comida era composto por homens em idade ativa, “com a pandemia você vê famílias inteiras”, relata Frei Marx, diretor-secretário do Sefras (Ação Social Franciscana).

Questionada, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo informou, em nota, que seu orçamento foi duplicado neste ano para investir em programas de distribuição de alimento e que por meio do Programa Cidade Solidária distribui cerca de 5 mil cestas básicas por dia útil —são 124 organizações no território da FreguesiaBrasilândia que receberam ou recebem cestas, de acordo com a pasta.

A administração municipal ressalta que também criou o Rede Cozinha Cidadã, outro programa de combate à fome.

Fome tem CEP, cor e gênero. Rodrigo “Kiko” Afonso, diretor-executivo da Ação da Cidadania, organização fundada por Herbert de Souza, o Betinho, diz que “a fome tem CEP, cor e gênero” —mulheres negras que moram no Norte e no Nordeste do país são as mais afetadas.

Fausto Filho, coordenador do G10 Favelas em Pernambuco e presidente do Instituto Casa Amarela Social, diz que não há cultura de doação na região e que as pessoas se sensibilizavam mais para ajudar durante o período mais agudo da pandemia e quando fortes chuvas atingiram o estado —como em maio deste ano.

“Tem gente que bate na porta chorando pedindo doação e a gente muitas vezes não consegue atender. Hoje, infelizmente, só conseguimos fazer 100 marmitas por semana, mas às vezes esse número cai para 50”, relata.

Saiba como doar:

  • Ação da Cidadania – https://www.acaodacidadania.org.br/
  • Associação dos Moradores Brasilândia/Cachoeirinha – (11) 997278502
  • Cufa – https://www.cufa.org.br/
  • G10 Favelas – https://g10favelas.com.br/
  • Instituto Casa Amarela Social: https://www.casaamarelag10pe.org.br/
  • Sefras – https://www.sefras.org.br/
  • Unas – https://www.unas.org.br/

Fonte: UOL

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